Por Geraldo Elísio (Novojornal)

Nasci e disto tenho orgulho no Grande Sertão Veredas. Desde criança ouço um velho ditado repetido vezes sem conta por Manuel Nardi, o célebre Manuelzão, de quem fui amigo particular, o professor dos segredos desta região a João Guimarães Rosa, autor do livro mundialmente famoso a ostentar o mesmo nome da frase inicial deste texto: “Boi sonso que a marrada é certa”.

A expressão final do primeiro parágrafo aplicasse com exatidão milimétrica ao atual governador de Minas Gerais, um aborto político que já é motivo de arrependimento de muitos que nele votaram no escuro. Fontes das mais seguras informam “o ante Beja de Araxá” está se programando para trocar de legenda, aconselhado por Newton Cardoso, indo para o MDB.

A finalidade da troca tem como alvo tentar salvar o “Coiso”, enquanto o ex-governador de Minas busca uma posição de destaque para o seu filho, o deputado federal reeleito Newton Cardoso Filho. Como integrante do jornalismo impresso, sou testemunha da ascensão, vida e morte do MDB, por diatribes com o governo golpista de 64, transformado em PMDB até voltar ao original.

Erro político dos golpistas levou a extinção dos antigos partidos existentes na época e à formação de falso bipartidarismo constituído pelo governista Arena e a oposição definida como Movimento Democrático Brasileiro, constituído, no caso mineiro, por nomes do porte de Tancredo Neves, Carone e dona Nísia, Renato Azeredo, Jorge Ferraz, Itamar Franco e outros.

Porém o passar do tempo foi desgastando a Arena e fazendo crescer o MDB, contido em suas dimensões pelas cassações de mandatos que chegaram a atingir até mesmo nomes dos portes de Tancredo Neves, Renato Azeredo e Jorge Ferraz. Lógico, surgirá alguém para contestar: “Mas estes nunca foram cassados!” E de fato não o foram.

Contudo, uma manhã, chegou à sede do MDB, em Belo Horizonte, a notícia de que na noite daquele dia seria divulgada a cassação dos três. Logo um clima de velório passou a ocupar o lugar. A noite chegou e a Hora do Brasil nada confirmou, porém a preocupação continuava. Então o padre Nobre ligou para um general do qual ele oficiara o casamento e foi convidado a ir jantar no Rio.

Ele entendeu o recado, viajou e foi informado que o chanceler Magalhães Pinto, no Conselho de Segurança Nacional havia sugerido os três nomes. Mas o general Orlando Geisel interveio dizendo concordar desde que na lista de cassados fosse incluído também o nome de Magalhães. Diante do clima de mal estar os quatro haviam sido salvos.

O tempo continuou evoluindo e outras cassações significativas ocorreram, entre elas o paranaense Alencar Furtado, o mineiro Marcos Tito e outro mineiro eleito pelo Rio de Janeiro, Lisâneas Maciel. Nesta mesma marcha surgiu espaço para a abertura política com as Diretas-Já e a redemocratização a resultar no quarteto Mário Andreazza, Paulo Maluf, José Sarney e Tancredo Neves.

O destino levou Tancredo à morte e beneficiou Sarney.

PMDB

Para sobreviver e chegar ao processo de abertura política, o governo militar resolveu batizar os partidos existentes. A Arena passou a se chamar Partido Democrático Social – PDS – mais à frente, em outra mutação, Aliança Liberal. O PMDB resistiu e tirou o pê, voltando a ser MDB. Mas ninguém vence o tempo e os brasileiros viram chegar o ano de 2016 trazendo no bojo o Zema.

Aqui é preciso explicar um detalhe. Ao longo dos anos Minas Gerais vem passando por um acentuado declínio de suas posições políticas nacionais a acentuar a pobreza. E o Estado é o grande pagador através da massa de funcionários públicos. O antecessor de Zema, Fernando Pimentel, deixou em atraso o pagamento do funcionalismo.

Revoltado o povo mineiro votou no “Ante Beja do Araxá”. Sem imaginar os desdobramentos futuros e a união dele com Bolsonaro, esquecendo-se da hipótese da volta do Lula, liderando após primeiro turno das futuras eleições onde se definirá o futuro brasileiro – ou a democracia ou o nazismo, uma movimentação popular similar à ocorrida quando das Diretas-Já.

E sem sequer imaginar o projeto de entrega e destruição do Estado Brasileiro com ampla defesa de Bolsonaro e seus milicos despreparados e de estimação, agora acolitado por Zema, perigo real agora visto por inteiro, alimentando sonhos maiores que a nossa mirrada filosofia sequer imagina pode acontecer. Manuelzão há mais de duas décadas virou saudade. Não podemos ouvi-lo.

Se vivo fosse ele confiaria nas grandes barbas brancas e com a serenidade que lhe era peculiar diria.

– Olhe bem a figura com a cara de sonso. E nunca duvide que a marrada é certa. E por garantia do senhor e sua gente, mantenha seguro na mão o melhor ferrão de topa que existir por aí.

Ferrão de topa” é a arma que os vaqueiros do Grande Sertão Veredas utilizam para dominar os animais maiores e mais agressivos de um rebanho bovino. Zema, a favor de seus cúmplices em negócios nebulosos, nos trata a todos como se fossemos um grande rebanho de milhares de vidas humanas. Escondido por trás de sua fisionomia sonsa cuja marrada é de fato certa.