Um ataque aéreo atingiu a região central do Irã nesta sexta-feira (19). A ação ocorreu após uma troca de ações retaliatórias entre o país islâmico e Israel nas últimas semanas, e marca uma escalada potencialmente perigosa do conflito no Oriente Médio.

De acordo com um oficial dos Estados Unidos ouvido pela CNN, o ataque realizado nesta manhã é de autoria israelense.

Até o momento, autoridades iranianas têm buscado amenizar o tom do incidente. Simultaneamente, Israel não assumiu responsabilidade pelo que aparenta ser o mais recente ataque em um conflito que já dura décadas.

Na medida em que a guerra até então realizada nas sombras emerge para o público, receios de uma escalada rumo a um conflito regional mais amplo também aumentam.

Segundo um oficial de Teerã, capital do Irã, as defesas aéreas iranianas interceptaram três drones após reportes de explosões nas proximidades de uma base do Exército, localizada na província de Isfahan, região central do país.

Nenhum ataque de míssil foi reportado, informou o porta-voz do Centro Nacional de Ciberespaço do Irã, Hossein Dalirian, na rede social X.

O forte estrondo observado nas proximidades de Isfahan foi causado por “sistemas de defesa aérea disparando contra um objeto suspeito”, disse um comandante militar sênior do Irã.

Ele também acrescentou que não houve “dano ou incidentes”, de acordo com a agência de notícias Tasnim, alinhada ao governo iraniano.

Todas as instalações próximas a Isfahan estavam seguras, incluindo instalações nucleares significativas, reportou a mídia iraniana.

O órgão de fiscalização nuclear da Organização das Nações Unidas (ONU) confirmou que nenhuma estrutura nuclear foi danificada.

O ataque dá sequência a uma investida iraniana inédita contra Israel, realizada no último fim de semana.

Segundo autoridades de Teerã, a ação se tratou de uma retaliação por um ataque de suposta autoria israelense que atingiu e matou oficiais na embaixada do Irã na Síria no dia 1º de abril.

As represálias marcaram a primeira vez que o país islâmico lançou um ataque direto contra Israel a partir de seu próprio território.

Após a ação iraniana, diversos países, incluindo os Estados Unidos, pediram cautela de Israel para prevenir uma escalada do conflito, uma vez que a guerra israelense contra o grupo Hamas na Faixa de Gaza já inflamou as tensões políticas na região.

De acordo com outro oficial sênior dos Estados Unidos ouvido pela CNN, os americanos não deram “sinal verde” para uma resposta israelense. Antes do ataque desta sexta, a expectativa dos EUA era de que Israel não teria como alvo instalações civis ou nucleares, acrescentou o oficial.

Por que isso está acontecendo agora?

O ataque desta sexta-feira ocorre após o lançamento de centenas de drones e mísseis iranianos contra Israel no último sábado (13), que ativaram sirenes e o sistema de defesa aéreo em Israel.

A ação, que parecia projetada para maximizar o espetáculo e minimizar casualidades, teve o alto volume de projéteis destruído por Israel e seus aliados.

Apesar do baixo risco apresentado pelo ataque, Israel afirmou que iria “cobrar um preço” ao Irã em resposta aos lançamentos.

O gabinete de guerra israelense se reuniu periodicamente ao longo desta semana sem anunciar qualquer ação definitiva.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Hossein Amir-Abdollahian, disse à CNN que o intuito dos ataques do último fim de semana “se mantiveram dentro de um mínimo de parâmetros”, e que a ação foi de “legítima defesa” em resposta ao que Teerã afirmou ter sido um ataque israelense ao consulado do país islâmico em Damasco, capital da Síria, no dia 1º de abril.

O ataque aéreo em questão destruiu o edifício da embaixada e matou ao menos sete oficiais, incluindo Mohammed Reza Zahedi, um comandante de alta patente no Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica (IRGC), grupo de elite das forças de segurança do Irã.

Também foi vitimado o comandante sênior Mohammad Hadi Haji Rahimi, afirmou o ministro.

As forças militares de Israel não se responsabilizaram pelo ataque na Síria e disseram à CNN que não comentam assuntos de outros países.

Um porta-voz militar, no entanto, disse que Israel acredita que o alvo atingido era um “edifício militar da Força Quds” – uma unidade da IRGC responsável por operações estrangeiras.

O Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, afirmou que a leitura das autoridades americanas era de que Israel teria conduzido o ataque.

Qual a relação com Gaza?

A troca de ataques entre os dois países ocorre em meio à guerra de Israel em Gaza contra o grupo Hamas. O conflito no local causou uma crise humanitária de grande escala, com milhares de civis mortos e altíssima tensão regional.

Israel iniciou sua campanha de guerra após o ataque do Hamas em território israelense no dia 7 de outubro de 2023. Segundo oficiais israelenses, a investida matou mais de 1.200 pessoas, com cerca de outras 250 levadas como reféns.

O Irã, que tem uma rede de intermediários espalhada pela região e é visto como um apoiador de longa data do Hamas, negou envolvimento no ataque.

Desde a eclosão da guerra em Gaza, no entanto, os intermediários do Irã executaram ataques contra Israel e seus aliados e causaram estragos no transporte marítimo global, com o lançamento de mísseis e drones contra embarcações comerciais no Mar Vermelho.

Acredita-se que Teerã apoia, mas não controla totalmente seus intermediários, incluindo o poderoso grupo Hebzollah, no Líbano, e os rebeldes youthi no Iêmen.

Os Estados Unidos têm sido apoiadores firmes de Israel durante a guerra contra o Hamas. O presidente americano Joe Biden e membros seniores da sua equipe de segurança, no entanto, já avisaram aos aliados israelenses que os EUA não irão participar de nenhuma ação ofensiva contra o Irã, de acordo com oficiais americanos familiarizados com o assunto.

O que pode acontecer?

Apesar dos pedidos de cautela feitos por aliados a Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse, nesta quarta-feira (17), que Israel irá tomar suas “próprias decisões” para responder aos ataques do Irã.

Horas antes dos primeiros reportes de explosões no Irã nesta sexta, o ministro Amir-Abdollahian advertiu que a resposta de Teerã seria “imediata e em nível máximo” a qualquer nova ação militar israelense contra o país.

“Se o regime israelense cometer o grave erro novamente, nossa resposta será decisiva, definitiva e causará arrependimento neles”, disse o ministro das Relações Exteriores do Irã.

“Nós não buscamos criar tensão, crise ou acirrar tais situações no Oriente Médio, e sinceramente esperamos que o regime israelense não repita o erro flagrante anterior”, acrescentou Amir-Abdollahian.

O ministro adicionou, ainda, que os detalhes de uma potencial “resposta máxima” já foram planejados pelas forças armadas do Irã.

A mídia iraniana, no entanto, parece tentar amenizar a severidade do ataque desta sexta. Veículos de imprensa do país têm publicado fotos e vídeos de cenas calmas em Isfahan e na cidade de Tabriz, no noroeste do Irã.

Israel precisaria de suporte significativo de seus aliados no Ocidente para entrar com força total em uma guerra no Oriente Médio, avalia Maha Yahya, diretora da fundação de pesquisas Centro Carnegie, localizada na região.

“Israel não tem a capacidade para manter uma guerra de “tudo ou nada” a longo prazo sem suporte externo. Seria necessário um compromisso dos Estados Unidos na continuidade do fornecimento de armas. Israel depende dos EUA e de outras potências ocidentais em uma série de questões militares”, afirmou Yahya