Por Mauro Ferreira

Antes de dar voz à música Quebra-mar, parceria de Dori Caymmi com Paulo César Pinheiro que gravou com Dori no álbum Canto sedutor (2022), Mônica Salmaso alertou o público da casa Vivo Rio que iria cantar “beleza máxima” da música brasileira.

Ninguém há de ter discordado quando Salmaso começou a dar voz a essa canção em que Dori e Pinheiro mergulharam no mar profundo de um certo Dorival Caymmi (1914 – 2008) para emergir de lá com uma das mais bonitas e (mais) desconhecidas canções recentes de uma MPB que insiste em resistir nos nichos.

Salmaso canta divinamente bem para esses nichos. E pisou sozinha no palco da casa Vivo Rio na noite de sábado, 24 de fevereiro, para apresentar o show Minha casa (2023) na cidade do Rio de Janeiro (RJ) porque é cantora tão grande que segurou a onda de dividir de igual para igual um show com Chico Buarque na última turnê do artista, Que tal um samba? (2022 / 2023).

Chico, aliás, estava em um dos camarotes da casa. Na plateia, à beira do palco, avistava-se grandes nomes da MPB pouco vistos em estreias, como Dori Caymmi, Joyce Moreno e Simone.

A plateia estrelada deu a medida do prestígio amealhado por Mônica Salmaso em trajetória que ganhou o primeiro impulso há 20 anos com a edição do quarto álbum da cantora, Iaiá (2004), o primeiro da artista na gravadora Biscoito Fino, companhia fonográfica que abriga essa cantora paulistana imune às modas e aos modismos da indústria da música – opção reiterada no roteiro desse show estreado em São Paulo (SP) em setembro.

Primeiro show de Salmaso após o fim da turnê com Chico Buarque, Minha casa resultou extremamente fiel à ideologia e à estética acústica da artista – a começar pela direção musical orquestrada pela própria Salmaso com Teco Cardoso (flautas e saxofones), integrante da banda que alinhou os virtuoses Ari Colares (percussão), Lulinha Alencar (acordeom), Neymar Dias (viola caipira e contrabaixo), Ricardo Mosca (bateria) e Tiago Costa (piano), autor de arranjos exuberantes como os de Morro velho (Milton Nascimento, 1967) e Paulistana sabiá (Guinga, 2021), outras beleza máximas de roteiro magnânimo, construído sem concessões.

Em vez de salpicar sucessos populares para forçar empatia com o público conquistado a partir da turnê com Chico, Salmaso sublinhou a força da personalidade artística ao seguir roteiro inteligente com 22 músicas – quase todas pouco conhecidas – que a fizeram atingir o céu ao percorrer mares e terras do Brasil através de cancioneiro lapidar.

“Vou cantar aos ventos / Encantar o tempo”, anunciou ao dar voz à música mais surpreendente do roteiro, O tempo nunca mais firmou (2021), parceria de dois jovens compositores, Chico Chico e Sal Pessoa, dissociados das tradições da MPB cultuadas por Salmaso.

Entre a abertura com Saudações (Egberto Gismonti e Paulo César Pinheiro, 1974) – samba lançado há 50 anos por Johnny Alf (1929 – 2010) e revivido por Salmaso (com direito ao toque do tamborim) para dar as boas-vindas ao público que adentrava a casa da cantora – e o canto de Menina amanhã de manhã (Tom Zé, 1972) no bis, antes do fecho das cortinas, Mônica Salmaso de fato encantou o tempo ao longo desse show de hora e meia com a precisão do canto.

Citando versos do samba Vou na vida (Swami Jr. e Virgínia Rosa, 1997), segunda música do roteiro, quando Mônica Salmaso cantou, tudo pareceu encontrar o devido lugar. E, conduzida pelo toque da sanfona de Lulinha Alencar, a intérprete foi muito para o nordeste do Brasil, região evocada pela lembrança de Noite severina (Pedro Luís e Lula Queiroga, 2001), pela levada de Tá? (Pedro Luís, Roberta Sá e Carlos Rennó, 2009) e pelo andamento ágil do coco Gírias do norte (Jacinto Silva e Onildo Almeida, 1961), apresentado na voz serelepe da cantora pernambucana Marinês (1935 –2007).

Recorrente no show, a incursão pela nação nordestina legitimou a citação de Baião (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1946) ao fim da toada sertaneja Aparição do Gonzaga (Ian Faquini e Guinga, 2020), seguida com leitura de poema do pernambucano Rogaciano Leite (1920 – 1969).

No sertão da terra pisada por Mônica Salmaso no show Minha casa, o chão pavimentou tanto a sina seguida por A violeira (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1983) na cadência do xote quanto as referências caipiras mencionadas no passo embolado do coco Violada (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1992), retrato do Brasil caboclo pintado pela cantora no álbum Corpo de baile (2014) e retocado no show Minha casa com o pontilhar da viola caipira de Neymar Dias em solo devidamente aplaudido.

Da terra sertaneja, pela qual caminhou com classe no canto de Assentamento (Chico Buarque, 1997) e na aridez poética de Mortal loucura (José Miguel Wisnik com versos do poeta Gregório de Matos, 2005), Salmaso entrou no mar, navegando pelo samba Acalanto (Teresa Cristina, 2004), número em que a artista percutiu frigideira no canto do refrão de ritmo marcado pelo público nas palmas das mãos.

Gênero dominante no roteiro, o samba ditou a cadência de Santa voz (Baden Powell e Paulo César Pinheiro, 1996), do partido alto Moro na roça (tema tradicional em adaptação de Xangô da Mangueira e Jorge Zagaia, 1972) – número em que Salmaso celebrou o canto ancestral de Clementina de Jesus (1901 – 1987) – e de Telecoteco (Marino Pinto e Murilo Caldas, 1958), pérola lançada na voz de Aracy de Almeida (1944 – 1988), o samba em pessoa.

Fora do terreirão do samba, a cantora abordou Xote (Rodolfo Stroeter e Gilberto Gil, 1998) e Valsinha (Chico Buarque e Vinicius de Moraes, 1971) antes de cantar Beatriz (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983), na volta para o bis, com o verso alterado por Chico em 2023, mudança que gerou saborosa história contada para a plateia.

Terminado o show, bonito de se ver, a sensação foi de encantamento ao sair da casa de Mônica Salmaso com a certeza de que é divina a sina dessa grande cantora que, desafiando todas as leis e lógicas do mercado, insiste em cantar belezas máximas da música do Brasil.

Eis as 22 músicas do roteiro seguido por Mônica Salmaso em 24 de fevereiro de 2024 na estreia carioca do show Minha casa, na casa Vivo Rio, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):

1. Saudações (Egberto Gismonti e Paulo César Pinheiro, 1974)

2. Vou na vida (Swami Jr. e Virgínia Rosa, 1997)

3. Noite severina (Pedro Luís e Lula Queiroga, 2001)

4. Aparição do Gonzaga (Ian Faquini e Guinga, 2020) – com leitura de poema de Rogaciano Leite e com citação de Baião (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1946)

5. A violeira (Antonio Carlos Jobim e Chico Buarque, 1983)

6. Quebra-mar (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, 2022)

7. Acalanto (Teresa Cristina, 2004)

8. Telecoteco (Marino Pinto e Murilo Caldas, 1958)

9. Valsinha (Chico Buarque e Vinicius de Moraes, 1971)

10. Violada (Guinga e Paulo César Pinheiro, 1992)

11. Paulistana sabiá (Guinga, 2021)

12. Moro na roça (tema tradicional em adaptação de Xangô da Mangueira e Jorge Zagaia, 1972)

13. Assentamento (Chico Buarque, 1997)

14. Morro velho (Milton Nascimento, 1967)

15. Santa voz (Baden Powell e Paulo César Pinheiro, 1996)

16. O tempo nunca mais firmou (Chico Chico e Sal Pessoa, 2021)

17. Xote (Rodolfo Stroeter e Gilberto Gil, 1998)

18. Mortal loucura (José Miguel Wisnik com versos do poeta Gregório de Matos, 2005)

19. Tá? (Pedro Luís, Roberta Sá e Carlos Rennó, 2009)

20. Gírias do norte (Jacinto Silva e Onildo Almeida, 1961)

Bis:

21. Beatriz (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983)

22. Menina amanhã de manhã (Tom Zé, 1972)


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