As referências estão presentes em nossas vidas como marcos que indicam o caminho a seguir. Por onde passar, quando recuar, placas de trânsito, semáforos, avisos sinistros, passantes suspeitos e até música ruim no rádio do carro. São muitas as referências e de naturezas várias, incluindo avisos sonoros, sonhos proféticos, nuvens na linha do horizonte, odores fétidos e inclusive o pum suspeito, sempre creditado ao outrem mais frágil do entorno.

As pessoas não percebem, mas os marcos são um presente e, também, um incômodo. Contrações faciais do outro, um gesto errático agressivo, um ajuste no cinco da calça, somos escravos e não sabemos. Agora, pior, em face dos telefones celulares, computadores, televisores que falam e escolhem por você os filmes mais adequados aos seus gostos e desgostos, tudo nos cerca, tudo nos devora.

Mas, dos celulares eu gosto. E, neles, o que mais aprecio é a capacidade que têm de fazer ligações telefônicas. Sei que eles são múltiplos em aptidões, e que podem, inclusive, servir para muitas e tantas coisas, inclusive jogar sinuca. No manuseio evito as ligações com vídeo, haja vista referidos aparelhos terem, contra mim, alguma indisposição do ponto de vista da minha presença cênica: não me fazem justiça, eu sou muito mais bonito do que essas coisas conseguem me retratar. Mas, estou me adaptando e já consigo conviver com essa injustiça.

Ontem liguei para o Carlos Eloy, ex-deputado e que também foi presidente da Cemig entre tantas outras atividades de alto relevo. O Carlos tinha excepcional capacidade de avaliação do ponto de vista do alinhamento e desempenho de políticos, de partidos e de gestores em geral. Falava com convicção, colocando com elegância os seus pontos de vista que não julgavam, mas que também não acariciavam incompetentes e corruptos.

Esperava ouvir do Eloy as avaliações mais recentes, de sua lavra, sobre o momento político que atravessamos. Mas, o celular não foi atendido e deixei um longo e carinhosos recado para o amigo. À noite, me ocorreu uma dúvida cruel sobre o tempo, as pessoas, e a relação entre eles. O tempo é ardiloso, ele passa suave, sem alarde, vai deixando as suas marcas indeléveis, mas com vagar e até gentileza, porque não dói, não machuca, mas apenas consome de forma constante. Com a mão esquerda, ainda deitado, como me encontrava, busquei no criado-mudo o celular e procurei pelo Carlos, que encontrei já falecido há alguns anos.

O celular também é isto, um obituário de plantão, sempre disponível. Sou um incompetente no tocante a me dar conta de que os amigos também morrem. Gostaria que apenas os inimigos fossem consumidos, mas estes sempre ficam, têm saúde de ferro e não abandonam o talude; seguem se equilibrando pela longa vida afora.

Em data próxima também liguei para o Ivair Nogueira, meu consultor para assuntos metropolitanos. Ele se permitiu ser levado pela Covid e não pode atender, uma lástima. Está em outro plano, que os celulares ainda não alcançam…. por enquanto. Minha mente ficou povoada de personagens que ilustraram o período mais ativo de minha vida social e profissional. Digo, povoaram, porque já se foram e, confesso, fazem muita falta.

Do Roberto Gutierrez costumo receber visitas, em sonhos, todas revestidas de gentileza, como era o seu feitio. O Fernando Telles já me achou em terreiro de umbanda, no qual me encontrava em apoio a um amigo que buscava a cura de paixões venenosas e do cultivo de sentimentos sinistros. O Fernando apareceu em meio a um trabalho patrocinado pelo Exu Tranca Rua, porteiro dos cemitérios e muito apreciado pelos seus seguidores. Não sei se estão juntos, em parceria para missões extraordinárias, mas tudo é possível.

Invoquei, no local, o espírito do Gentil Nascimento, que não apareceu. O Gentil era esperto demais para dar sopa em terreiro de Umbanda. Deve estar por aí, no Além, buscando por negócios de ganhos fáceis e generosos, fazendo comercio com moedas cósmicas e prometendo agenciar reencarnações na Califórnia. Chamei pelo Raul Belém, que também não me atendeu.

Invoquei o Itamar Franco, para lhe passar algumas descomposturas, mas ele não veio. Um emissário espiritual disse que o Itamar se encontrava em processo de resgate” kármico”, no caldeirão fervente e incomunicável. A lista é grande, mais de uma centena de amigos e conhecidos que já se foram. Está uma morreção ( a palavra me veio à mente, mas não sei se existe ) brava por aí afora.

Liguei para o Roberto Requião em Curitiba, ele está com oitenta anos e candidato a governador do seu Estado. Alertei-o quanto a essa criatura indigesta, o tempo, e ele riu e disse:” Caio, você e eu somos como o rio que corre em direção à cachoeira; sabemos que ela está à frente, mas vamos seguindo como se não existisse. Esse é o verdadeiro combate”.

Meus amigos, por onde andam vocês?


3 Comentários

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    Mario Baltar, fevereiro 15, 2022 13:42 @ 13:42

    Meu amigo Caio Brandão, irreverente, polêmico, astuto , mas amigo de seus amigos , tantos já se foram , outros como eu continuam aqui! Saudosos de tempos inolvidáveis, de paradas comerciais incontáveis, algumas cômicas , mas sempre eficazes! A vida as vezes nos separa, mas as façanhas e os momentos vivenciados em parceria nos aproximam ignorando o tempo ! A memória de coisas boas não tem tempo ! Algumas amizades são como cicatrizes , o tempo não as apaga ! Amigo Caio , eu tive o privilégio de trabalhar e conviver com você ! Foi bom demais ! Tenho saudade ! Amizade sempre!

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    caio brandão, fevereiro 17, 2022 10:25 @ 10:25

    Meu querido e velho amigo Baltar. Que bom revê-lo, aqui, neste espaço. Em nossa jornada, nos bons tempos de muitas batalhas, você sempre se apresentou como ponto de equilíbrio, com raro senso de oportunidade e inegável inteligência. A minha vocação para o perigo contou, sempre, com esse fiel, competente e dedicado escudeiro: você.

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    Jonas Mendes, fevereiro 24, 2022 14:08 @ 14:08

    Boa tarde , infelizmente tudo acaba os deuses os que acham que são deuses , até a chegada triste da morte solitária . Então viva a vida fazendo o melhor , até que o inimigo ( Rússia ) resolva nos atacar literalmente 🌹

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