Angela Carrato – Jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG

Se alguém me contasse, não acreditaria. Foi preciso assistir para não ter dúvida. Na ânsia para levar a eleição presidencial para o segundo turno, a TV Globo promoveu um verdadeiro show de horrores.

Era para ser pomposo o último debate entre os candidatos que disputam o Palácio do Planalto.

Era também para ser a oportunidade de ouro para os eleitores ainda indecisos obterem novos elementos para se posicionarem.

Era para a família Marinho demonstrar o seu poder.

Mas o que se verificou foi uma indignação geral contra a emissora, envolvendo desde os participantes até o público que assistiu entre pasmo e furioso ao tal último debate.

Os problemas começaram na própria forma autoritária com que a TV Globo definiu o formato do evento: suprimiu a participação de jornalistas, colocou o âncora de seu principal telejornal, William Bonner, como o árbitro do espetáculo e criou o ambiente propício para que os candidatos se atacassem.

Sem a mediação de jornalistas, inclusive para recolocar a verdade nos trilhos, a maioria dos candidatos falou os absurdos e inverdades que quis e ficou o dito pelo não dito.

Mas não é a Globo que se gaba pelo combate às fake news?

Numa situação em que um dos candidatos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera todas as pesquisas de intenção de votos, com grandes chances de vencer no primeiro turno, era óbvio que se tornaria o alvo.

O que não se imaginava era que os demais candidatos lançariam mãos de tantas baixarias em busca de alguns votos na reta final de campanha.

Bolsonaro foi o mais pródigo nas mentiras e no uso de “laranjas“. Desde o começo não mediu agressões verbais contra o ex-presidente Lula, se valendo do padre fake, candidato do PTB, como sua “linha auxiliar“.

É importante observar que Bonner não se deu nem ao trabalho de apresentar os currículos dos candidatos. Apresentação que poderia ter esclarecido que o autointitulado padre não passa de um impostor, já que nenhuma igreja o reconhece como seu integrante.

O padre fake, por sua vez, foi desmascarado pelo conluio com Bolsonaro, flagrado num dos intervalos do debate, e também por fotos em manifestações bolsonaristas, que as redes sociais divulgaram sem piedade.

A TV Globo poderia ter evitado essa vergonha, se ela própria contasse para o seu “respeitável público” a história do padre fake. Mas será que o interesse da Globo não era exatamente criar confusão? Nivelar o debate por baixo?

Tudo indica que sim.

O tal debate nunca teve preocupação em esclarecer nada.

Na prática, o que a Globo fez foi utilizar os seus surrados formatos de programas de auditório, sem qualquer compromisso jornalístico, para dar sequência à saga para desacreditar a política e os políticos.

Saga que, no passado recente, deu no que todos sabem: a eleição de Bolsonaro.

Não por acaso, Bonner, sempre tão atento aos interesses dos patrões, fez ouvidos moucos quando o ex-capitão disse que tinha acabado com “as mamatas da Globo”.

Ele também fingiu que nada ouviu quando a candidata Simone Tebet, rainha do agrobussiness, fez declarações de amor ao meio ambiente e compromisso com quem passa fome. Haja cara de pau!

Pior ainda foi a sorte da candidata Soraya, que tentou desconhecer o seu passado bolsonarista e foi lembrada pelo próprio, através da menção às dezenas de pedidos de cargos que lhe fez.

A Globo não teria nada com isso, se não fosse o estímulo que deu às duas candidatas e também ao representante do partido Novo, na esperança que pudessem se constituir na tão sonhada “terceira via“.

A tal “terceira via” não pegou. Seus candidatos, mesmo carregados pela Globo e pela GloboNews são fiascos nas pesquisas de intenção de votos.

Tebet, por exemplo, não conseguiu nem o apoio de todo o seu partido, o MDB, aquele que esteve à frente do golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff.

Talvez o único mérito da bonitinha Tebet seja deixar claro o verdadeiro tamanho de Ciro Gomes: um candidato nanico, que apequenou o partido criado pelo gigante Leonel Brizola. Talvez a melhor definição para Ciro, seja vítima do próprio ego.

Num circo de horrores como esse, Lula fez o que podia fazer: desmentiu seus agressores, anunciou propostas de governo e garantiu que, se eleito, sua primeira medida será colocar fim aos sigilos de 100 anos de Bolsonaro.

Alguns comentaristas de araque, acostumados com as estrepolias dos integrantes das casas do BBB, tentaram aplicar o mesmo padrão ao debate.

Para eles, Lula teria perdido pontos ao denunciar o padre fake.

Mesmo que o projeto da Globo seja transformar o Brasil numa grande casa, onde ela faça as regras e decida quem vence, eleição é outra coisa.

Já se foi o tempo em que a família Marinho fazia presidentes, como gostava de se gabar o patriarca Roberto.

Já se foi o tempo em que a Globo editava debate e levava um tipo como Collor à presidência da República.

Em pleno século XXI, anacrônicos não são apenas candidatos mentirosos e sem qualquer compromisso social.

Anacrônica é também uma emissora que ainda sonha em mandar no Brasil, em criar candidatos para combater os políticos efetivamente comprometidos com as causas populares.

Mais do que nunca os brasileiros e brasileiras irão às urnas no próximo domingo, 2 de outubro, para escolher o retorno à democracia e cientes de que a mídia corporativa brasileira, grupo Globo à frente, possui enorme responsabilidade no circo de horrores que tem sido esses últimos quatro anos.

Bolsonaro será derrotado, de preferência no primeiro turno. E a Globo também.

Quanto ao Bonner, em breve estará a caminho do esquecimento, como seu antecessor o agora Cid (quem?) Moreira.

A fila anda e a caravana passa.

P.S. Em 5 de outubro, vence a concessão da TV Globo. Os irmãos Marinho já protocolaram o pedido de renovação. Façam suas apostas: Bolsonaro vai decidir ou deixará o assunto para o próximo governo?