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A batalha por seguidores nas redes sociais se tornou uma das maiores moedas de troca de influenciadores digitais. Quanto mais fãs, curtidas e comentários, mais fama e dinheiro. Na busca do Google, a simples pergunta: “como ganhar seguidores?” mostra mais de 17 milhões de resultados, muitos deles sobre como burlar a conquista “orgânica” de seguidores para alcançar o objetivo pagando por fãs.

Em entrevista, a coordenadora de Mídia e Democracia do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS -Rio), Karina Santos, comentou os desafios da democracia na cultura digital e deu algumas dicas de ferramentas para que usuários de internet não sejam alvos de informações falsas proliferadas por perfis “fakes”.

Segundo a pesquisadora, mais importante que descobrir um ou outro perfil falso, fraudulento ou anônimo, o foco deve ser em uma legislação que investigue e invista contra os financiadores de cadeias de desinformação. “Defendemos que deve existir uma regulação ao estilo ‘follow the money’ (siga quem financia ou o dinheiro), pois aí está de fato a questão que pode desenredar o problema da desinformação”, avalia.

Confira a entrevista completa:

Como usuários da internet podem se precaver e evitar proliferar informações falsas?

Karina Santos: É importante ter sempre atenção ao consumir informações na internet, seja nas redes sociais ou em aplicativos de mensagem. O primeiro passo é sempre verificar a informação recebida antes de compartilhar com outras pessoas.

Muitas pessoas estão habituadas a ler apenas o título ou repassar um vídeo sem ter certeza se a informação procede, o que pode levar a uma grande onda desinformativa.

Para evitar isso, o usuário deve sempre checar a fonte da informação recebida e conferir se esta informação também foi divulgada por outros veículos. Basta digitar as principais palavras em um mecanismo de busca, como o Google, que as informações mais relevantes sobre aquele assunto aparecerão no topo da página. Nesta etapa já será possível encontrar publicações de agências de checagem de fatos que estão a todo momento verificando conteúdos falsos que circulam nas redes.

Existe algum modo de checar se um perfil que tem grande poder de influência nas redes usa seguidores falsos?

Detectar um perfil automatizado ainda não é uma tarefa simples, não existe uma receita de bolo 100% garantida. O que temos são elementos que nos ajudam a entender como funciona o comportamento automatizado nas redes sociais, mas requer uma avaliação cuidadosa de diferentes aspectos.

A boa notícia é que hoje já existem ferramentas que fazem essa análise automática, como por exemplo o Pegabot. O Pegabot é uma ferramenta desenvolvida pelo ITS que usa diversas métricas para analisar o quanto um usuário se parece com um robô e indica a probabilidade daquele perfil ser automatizado.

Entre alguns elementos dessa análise estão características da conta, comportamento de publicações do perfil, linguagem utilizada nestas publicações e até os seguidores deste usuário.

Qual é o grau de avanço da legislação brasileira sobre esses perfis falsos e a proliferação de informações falsas e o quanto ainda falta avançar nesse sentido?

A grande questão talvez não seja a legislação sobre perfis falsos ou verdadeiros, mas se temos uma regulação que cobre as campanhas de desinformação. E nesse sentido há muito o que avançar. Temos que focar em uma legislação que desvele essas cadeias porque elas têm um impacto muito maior do que um ou outro perfil falso, fraudulento ou anônimo.

Nesse sentido, estamos defendendo que deve existir uma regulação ao estilo “follow the money” (siga quem financia ou o dinheiro), pois aí está de fato a questão que pode desenredar o problema da desinformação.

Há dados sobre o fluxo de informações falsas e danos causados pelas mesmas no contexto brasileiro? Há aumento das “fake news” em ano eleitoral? Como lidar com a enxurrada de informações?

Em contextos eleitorais, a disseminação de informações falsas é capaz de afetar a credibilidade do processo eleitoral e a capacidade dos eleitores de exercerem o seu direito de voto de forma consciente e informada. Em 2018, por exemplo, informações nas redes sociais foram decisivas para uma parte do eleitorado brasileiro escolher em quem votar.

A pesquisa do Instituto DataSenado, por exemplo, aponta que cerca de 45% dos entrevistados decidiram seu voto considerando o que viram em alguma rede.

Por isso, em período eleitoral é preciso ter atenção redobrada com as informações que circulam em redes sociais e aplicativos de mensagens.
Existe uma indústria de desinformação muito bem estruturada hoje no país, que tem um alto potencial de dano na nossa democracia. Então, na dúvida, desconfie sempre. Busque diversificar o consumo de informações, verifique sempre a origem da informação compartilhada e cheque se este “notícia” já foi publicada por outras fontes. Acompanhe também os canais oficiais, seja do TSE ou até mesmo de candidatos.

De que modo as pessoas podem usufruir de forma positiva das tecnologias digitais e das redes sociais?

A comunicação é a estrutura fundamental para a democracia. Nesse sentido, as tecnologias digitais democratizaram em muito o acesso à informação. Hoje, por meio das redes sociais temos muito mais vozes participando do debate público do que antes.

Contudo, vale pontuar que a universalização do acesso e a oferta da conexão ainda não são questões superadas totalmente. Ainda temos uma parte significativa da sociedade brasileira desconectada e com seu direito de acesso à informação limitado.

As tecnologias melhoram o acesso à informação, mas elas por si só não garantem um debate público qualificado, pois não interferem na motivação das pessoas por buscar informações de qualidade.

Então, é preciso aprofundar a consciência na sociedade como um todo sobre os caminhos para um consumo crítico da informação, principalmente em períodos eleitorais, em que o consumo da informação política está intrinsecamente ligado ao voto.

 

 


Paola Tito

editor

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