A presença de garimpeiros na Terra Indígena Yanomami é ainda é uma ameaça frequente às comunidades. É o que mostram dados do sistema de alertas operados por indígenas que vivem no território: sete em cada 10 denúncias registradas no monitoramento são de invasão e exploração ilegal de garimpeiros na região.

Implantado em setembro do ano passado, há nove meses, o sistema funciona via celular com ou sem acesso à internet – neste período, foram registradas quase quatro denúncias por dia. O trabalho foi implantado pelo Instituto Socioambiental (ISA) e a Hutukara Associação Yanomami (HAY), com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

A ferramenta usada pelos indígenas é o aplicativo ODK Collect. Ao todo, foram registradas pelos indígenas 70 denúncias sobre riscos sanitários e ambientais nestes nove meses. Dessas, 49 foram relacionadas à presença de garimpeiros. As demais foram sobre incêndios e água contaminada (18%) e de saúde, como casos de desnutrição e surtos de malária (12%).

Maior território indígena do Brasil, a Terra Yanomami está em emergência sanitária desde janeiro do ano passado, quando o governo federal anunciou uma série de ações para conter o avanço do garimpo, incluindo ilegal, além de melhorar e fortalecer o serviço de saúde para garantir atendimentos aos indígenas.

O governo federal afirma que tem promovido na Terra Yanomami “a maior operação de retirada de invasores de um território indígena que já ocorreu no Brasil.”

“Atualmente, são 31 órgãos federais envolvidos no processo de segurança e garantia de vida digna aos yanomami. A coordenação de todo o trabalho está centralizada desde 29 de fevereiro de 2024 na Casa de Governo, instituição implantada por determinação do presidente Lula.”

Indígenas treinados

Dez indígenas que vivem na comunidade Watoriki, região do Demini, foram os primeiros treinados para operar o sistema. A ideia era atender, ainda, regiões como o Baixo Catrimani, Missão Catrimani e Alto Catrimani, onde há presença de garimpeiros.

Para o vice-presidente da Hutukara e líder Yanomami, Dário Kopenawa, o projeto apoia comunidades Yanomami e ajuda a denunciar invasões, situações de saúde e a gerir o território.

Ainda estamos sofrendo, os garimpeiros continuam em nossas terras e continuam passando com seus aviões na cabeça do nosso povo, incomodando o nascimento das nossas crianças com o barulho de motores. Mas com o sistema de alertas temos a oportunidade de comunicar às autoridades sobre o que acontece dentro de território”, declarou Dário.

As denúncias e queixas comunicada a partir do território Yanomami antes eram feitas por cartas, visitas presenciais ou mensagens de radiofonia, o que melhorou com o novo sistema. O monitoramento funciona como uma central onde as próprias comunidades, por meio de um aplicativo de celular, emitem notificações sobre riscos de maneira ordenada.

“Com o projeto, temos um fluxo mais organizado para receber informações do território e com isso, temos melhor acompanhamento da situação e mais qualidade de informações. O sistema de alerta é uma oportunidade de organizar e ter dados com qualidade para acompanhamento mais fino e melhor resposta do poder público”, explica Estêvão Benfica Senra, geógrafo do ISA.

Como funciona o sistema

O sistema disponibiliza formulários onde a população indígena pode anexar fotos, vídeos, áudios e até mesmo pontos de localização com coordenadas geográficas para relatar o alerta a ser gerado.

Após qualificados e validados, os alertas são colocados no painel para que autoridades e instituições parceiras possam ter ciência de qualquer anormalidade que ameace o território.

Os registros podem ser feitos offline e a ferramenta disponibiliza as opções nos idiomas yanomami, ye’kwana, sanoma e português.

A primeira fase do projeto, com a divulgação dos resultados foi concluída em maio deste ano, com um evento que reunião líderes Yanomami apoiadores da iniciativa.

O projeto do sistema de alertas tem o financiamento da União Europeia, por meio do Departamento de Proteção Civil e Ajuda Humanitária (ECHO, na sigla em inglês). O objetivo é aumentar a resiliência e fortalecer a autonomia das comunidades com a integração de um sistema que respeite o contexto e o conhecimento das comunidades indígenas.


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