Ângela Carrato – Jornalista. Professora de Jornalismo da UFMG. Membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

 

Diferentemente das mentiras que povoaram as falas de golpistas como Temer e Bolsonaro na mesma circunstância em anos anteriores, Lula abriu a reunião da assembleia geral da ONU, na terça-feira (24/9), abordando alguns dos mais relevantes temas que afligem países e povos neste delicado momento da vida internacional.  Razão pela qual foi aplaudidíssimo e teve, nos dias em que permaneceu em Nova York, agenda superlotada com participação em outros fóruns e conversas bilaterais.

A relevância do discurso de Lula deveria, por si só, garantir-lhe o devido destaque na mídia brasileira, além de dar lugar a repercussões e análises. Da emergência climática às guerras em processo no mundo, passando pela concentração de riqueza e poder em poucas mãos, Lula tocou nos pontos que, se não forem observados, podem levar ao fim o único planeta que temos para viver.

Seu diagnóstico e alerta apontam para as mesmas preocupações de cientistas e da maioria das pessoas em todas as partes do mundo. Razão pela qual deveria ter sido registrado e amplificado pela mídia, em especial a brasileira.

Mas o que se viu foi exatamente o contrário.

Por ter reafirmado o compromisso do Brasil com a paz no mundo, por ter condenado os atos genocidas cometidos por Israel na Faixa de Gaza e agora também no Líbano, por ter apontado a absurda concentração de renda nas mãos de um punhado de bilionários e por ter defendido uma reforma estrutural na própria ONU, Lula desagradou aos que se julgam donos do mundo e a alguns dos seus servos mais dedicados, os donos da mídia corporativa brasileira. Mídia que sempre atuou e continua atuando alinhada aos interesses imperialistas dos Estados Unidos e também de Israel.

Além de não dar destaque, a mídia corporativa brasileira, controlada por umas poucas famílias e a serviço do rentismo, minimizou e escondeu o que Lula disse e as propostas que fez.

O jornal o Globo, por exemplo, chegou ao absurdo de dar mais relevância ao blábláblá do ocupante da Casa Branca, Joe Biden, ao defender a paz no Oriente Médio, sem jamais ter movido uma palha para tanto. Outro absurdo de O Globo foi tentar equiparar Lula, um estadista respeitado internacionalmente, ao candidato a genocida, Javier Milei, presidente da Argentina. Em menos de um ano à frente da Casa Rosada, Milei já conseguiu jogar metade da população de seu país na pobreza.

Do alto dos seus supostos olimpos, os donos dos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo seguiram na mesma toada, tentando ignorar as críticas, preocupações e propostas formuladas por Lula.

Dos decadentes jornais paulistas, o Estado de S. Paulo conseguiu ir mais longe. Sem noticiar como devia o discurso e as repercussões, ativou seu sistema de checagem de notícias, o “Estadão Verifica”. Para desespero, teve que engolir que mesmo a partir de critérios enviesados estabelecidos para tal checagem, Lula estava certíssimo. No entanto, o mesmo sistema não foi ativado para os discursos de Biden ou a do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

Será que ambos dispensam tal critério? Seriam eles verdadeiros por definição?

Já no Jornal Nacional, da emissora da família Marinho, Netanyahu continua aparecendo como o mocinho em guerra contra os grupos Hamas e Herzbollah levianamente denominados como “terroristas”, uma vez que a própria ONU não os considera como tal. Por designações deste tipo fica fácil entender porque pessoas simples, que não sabem sequer onde se localiza Israel, acabam simpatizando e até apoiando um governo genocida.

O discurso de Biden, que falou logo depois de Lula, foi recebido com enorme ceticismo pela maioria e decepção pelos poucos que ainda acreditam que os Estados Unidos nutrem algum compromisso com a paz. Biden se pronunciou como se os Estados Unidos não tivesse qualquer responsabilidade pelo que acontece no Oriente Médio e não fosse o sustentáculo do genocídio praticado por Israel contra palestinos e libaneses.

A julgar pela fala de Biden, seu país não teria como frear Netanyahu, mas a realidade é bem diferente. Netanyahu é o braço armado pelo Tio Sam para reconfigurar o Oriente Médio ao seu bel prazer. Aliás, a própria denominação Oriente Médio é uma designação ocidental e imperialista.

De onde vem o enorme poder político e bélico de Israel, se não dos Estados Unidos?

Diante da repercussão positiva que teve o discurso de Lula entre a maioria dos chefes de estado presentes a esta 79º assembleia da ONU, Netanyahu decidiu só aparecer em Nova York na sexta-feira. Lula já havia retornado ao Brasil, o mesmo acontecendo com vários dirigentes europeus e asiáticos. Mesmo falando para uma plateia esvaziada, ele foi duramente criticado e vaiado.

Repercutiu muito mal, menos na mídia corporativa brasileira, o fato de Netanyahu ter  classificado alguns estados como representando a “benção – Arábia Saudita e Egito – e outros como “malditos – Irã, Síria e Iraque.  Delegações como a brasileira não assistiram ao seu discurso, enquanto outras se retiraram enquanto ele falava.

Essa fala do primeiro-ministro de Israel associada ao mapa que apresentou tempos atrás na ONU, onde o território de Gaza não existia mais, deixa nítido que os genocídios que Israel vem cometendo fazem parte de um projeto para expandir as fronteiras do estado sionista a toda a região, eliminando os países vizinhos.

Ela deveria motivar uma ação contra Israel do mesmo porte da que Hitler enfrentou por parte dos Países Aliados na Segunda Guerra Mundial (Reino Unido, França, União Soviética e Estados Unidos), quando decidiu ignorar fronteiras e anexar países à Alemanha nazista. Pelo visto, o compromisso dos Estados Unidos, Reino Unido e França com a democracia não existe mais e a Rússia, estado que se seguiu ao fim da União Soviética, está mergulhada, ela mesma em uma guerra por procuração patrocinada pelos Estados Unidos.

Se nada tem sido feito para deter Israel, pode-se supor que os Estados Unidos também compartilhem da visão sobre países “bênçãos” e países “malditos”. Mais uma vez, é preciso não perder de vista que Israel jamais agiria sozinho e que no fundo não passa de um braço dos Estados Unidos para agir no mundo árabe, região geopoliticamente falando de enorme relevância.

Além de não checar a veracidade do que diz Netanyaru, a mídia corporativa brasileira jamais o qualifica como genocida, da mesma forma que tenta normalizar as criminosas ações de Milei contra a maioria dos argentinos. Adjetivos como “ditador” essa mídia reserva apenas para chefes de governos populares como Nicolás Maduro, da Venezuela, e Miguel Diaz-Canel, de Cuba, países que têm em comum o compromisso com os interesses da maioria de suas populações e uma postura de defesa intransigente de suas soberanias.

Lula também abordou em seu discurso a necessidade de que as grandes empresas de tecnologia, com suas plataformas e redes sociais, sejam reguladas, sob pena de continuarem causando danos à democracia em diversas partes do mundo. Lula falou com a autoridade de um estado que enfrentou e enquadrou uma dessas empresas, o X (ex-Twitter) do bilionário Elon Musk.

Como a recente decisão do ministro do STF, Alexandre de Moraes, de bloquear o acesso ao X até que a plataforma legalizasse sua situação no Brasil teve enorme repercussão na mídia, era de se esperar que ela desse destaque ao menos a esse aspecto da fala de Lula.

Mas nem isso. A mídia corporativa brasileira preferiu divulgar um abaixo-assinado de acadêmicos estadunidenses a favor de Elon Musk, sob o argumento de “defesa da liberdade de expressão” e tenta apressar Alexandre de Moraes para que libere o X, já que a empresa teria cumprido as exigências legais para atuar no país. Nem de longe chegou a esboçar a mais leve discussão sobre o papel das redes sociais no ataque aos direitos humanos, na promoção dos discursos de ódio e no favorecimento aos extremistas de direita.

Uma mídia assim dispensa o Brasil e a maioria do povo brasileiro de ter inimigos. Ela é a nossa principal inimiga.

O “aspirante a judeu”, como Musk mesmo se define, estaria num distante segundo lugar nesta lista de inimigos, especialmente quando se observa que o X ocupa um nada significativo 9º lugar no acesso dos brasileiros às redes sociais.

O 3º Reich, entre sua ascensão e queda, levou 12 anos.  Em outubro, o genocídio de Israel contra os palestinos completa um ano. Quantos anos mais e quantas pessoas vão ser mortas antes de Netanyahu ser parado em sua sanha assassina?

Mais ainda: quando esse dia chegar, a mídia corporativa brasileira dirá o que ao seu “respeitável público”?

O presente está sendo manipulado por esta mídia submissa e a serviço do sionismo. Mas a história será implacável com ela, como foi com os nazistas, seus apoiadores e simpatizantes.

 


1 Comentário

  • Marcia Duarte Lage, setembro 28, 2024 12:13 @ 12:13

    Muito bom, Angela. É vergonhoso também ver a nossa mídia se pautando por influencers (que as investigações policiais já mostram a que vieram) e pela criminalidade espetacularizada, que só aumenta a nossa violência. Perderam a noção de prestadores de serviço, com imparcialidade e rigorosa apuração.

Os comentários estão fechados.