Após semanas de intensa diplomacia para promover um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah, os Estados Unidos mudaram de estratégia. Agora, ao invés de pressionar por uma trégua, optam por deixar o conflito no Líbano seguir seu curso. Até recentemente, Washington, junto com a França, buscava um cessar-fogo de 21 dias para evitar uma invasão israelense ao Líbano. No entanto, o cenário mudou após o assassinato do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, e o início das operações terrestres de Israel no sul do Líbano, somadas aos ataques aéreos que dizimaram parte da liderança do grupo.
Agora, o governo americano vê as circunstâncias de forma diferente. “Apoiamos Israel em suas incursões para enfraquecer a infraestrutura do Hezbollah, com o objetivo de obter uma resolução diplomática posteriormente”, declarou Matthew Miller, porta-voz do Departamento de Estado, em uma coletiva de imprensa.
A nova abordagem dos EUA reflete uma combinação de interesses: conter o conflito no Oriente Médio e, ao mesmo tempo, enfraquecer o Hezbollah, que recebe apoio do Irã. Embora uma vitória israelense sobre o Hezbollah beneficie tanto Israel quanto os EUA, há o risco de que o conflito se intensifique e se espalhe pela região.
De acordo com Jon Alterman, ex-funcionário do Departamento de Estado, os EUA querem ver o Hezbollah enfraquecido, mas precisam equilibrar esse desejo com o risco de criar um “vácuo” no Líbano ou desencadear uma guerra regional mais ampla. “Se não for possível mudar a postura israelense, a melhor opção é tentar canalizá-la de forma construtiva”, afirmou Alterman.
O conflito entre Israel e Hezbollah intensificou-se após o ataque do Hamas contra Israel em outubro de 2023, que desencadeou uma série de represálias. O Hezbollah disparou mísseis contra posições israelenses em resposta ao ataque, e ambos os lados têm trocado tiros desde então. As tentativas de negociar um cessar-fogo entre Israel e o Hamas fracassaram, levando Israel a intensificar seus bombardeios contra o Hezbollah e enfraquecer suas posições no Líbano.
A morte de Nasrallah, descrita como “um ato de justiça” pelos EUA, levou o presidente Joe Biden a pedir mais uma vez um cessar-fogo na fronteira entre Israel e Líbano. No entanto, Israel continuou com sua ofensiva terrestre, e os EUA mudaram de posição, agora apoiando a campanha israelense.
Aaron David Miller, ex-negociador dos EUA para o Oriente Médio, observou que a administração Biden viu benefícios em permitir que Israel continuasse sua operação. “O governo provavelmente percebeu uma oportunidade e decidiu aproveitar o momento”, disse ele. Além disso, os EUA parecem estar economizando influência para, no futuro, tentar conter uma possível retaliação de Israel ao recente ataque de mísseis balísticos do Irã.
Fontes europeias indicam que não há negociações significativas de cessar-fogo em andamento, e dois funcionários americanos disseram à Reuters que a operação israelense pode continuar “por semanas, se não meses”.
Para os EUA, a campanha israelense pode trazer dois benefícios principais: enfraquecer o Hezbollah, a milícia mais poderosa do Irã, e diminuir a influência de Teerã no Oriente Médio. Além disso, Washington acredita que a pressão militar pode forçar o Hezbollah a depor suas armas e abrir caminho para um novo governo no Líbano.
No entanto, Jonathan Lord, ex-funcionário do Pentágono, adverte que esse objetivo pode ser difícil de alcançar. Muitos libaneses estão insatisfeitos com o peso da presença do Hezbollah no país, mas a ideia de mudança imposta por meio de violência pode não ser bem aceita.
Autoridades americanas afirmaram que, enquanto os combates continuam, as conversas para implementar a resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, que estabelece uma missão de paz da UNIFIL para ajudar o exército libanês a manter a segurança na fronteira sul com Israel, ainda são possíveis.
Apesar dos riscos de uma escalada regional e da possibilidade de o Líbano se tornar outra Gaza, a diplomacia internacional ainda tem um caminho incerto pela frente. Alterman destaca que Netanyahu vê seus esforços dando frutos, e o atual momento parece oportuno para Israel continuar pressionando suas vantagens no campo de batalha.

