A 16ª cúpula do BRICS, realizada em Kazan, Rússia, resultou na publicação de uma declaração oficial que reforça a necessidade de reformar instituições globais, especialmente o Conselho de Segurança da ONU e o Fundo Monetário Internacional (FMI). O objetivo é garantir maior representatividade e voz para os países em desenvolvimento e emergentes. A Declaração de Kazan, com 43 páginas e 134 itens, também projeta a criação de uma nova ordem mundial multipolar, baseada em diversos centros de poder, e aborda temas cruciais da agenda internacional, como mudanças climáticas, inteligência artificial e conflitos globais.
O documento enfatiza que uma ordem multipolar pode beneficiar os países em desenvolvimento, permitindo que liberem seu potencial e assegurando um sistema mais equilibrado. “A multipolaridade expande as oportunidades para que mercados emergentes e países em desenvolvimento desbloqueiem seu potencial construtivo, garantindo benefícios para todos”, destaca a declaração.
Os líderes do BRICS, incluindo o presidente chinês Xi Jinping e o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, participaram da cúpula, com Xi reforçando a importância da cooperação entre os países do Sul Global e a urgência da reforma nas instituições internacionais. Segundo ele, as mudanças no equilíbrio de poder mundial estão acontecendo mais rapidamente do que o ritmo das reformas globais. O Sul Global, termo usado para se referir a países pobres ou emergentes, foi um dos focos centrais da discussão.
A declaração também sublinha a intenção de expandir o BRICS, fortalecendo a parceria com outros países em desenvolvimento e promovendo a cooperação internacional. A inclusão de novos membros ao bloco faz parte do plano de consolidar um mundo multipolar. O coordenador do Grupo de Estudos sobre o BRICS da USP, Paulo Borba Casella, comentou que a expansão do bloco é uma novidade importante, mas a organização desse novo cenário global ainda precisa ser cuidadosamente planejada.
Outro ponto relevante da declaração é a busca por mecanismos de financiamento e comércio em moedas locais, como forma de reduzir a dependência do dólar. “Incentivamos o uso de moedas nacionais nas transações financeiras entre os países do BRICS e seus parceiros comerciais”, afirma o documento.
Em relação aos conflitos mundiais, o BRICS expressou preocupação com várias guerras em curso, como as que ocorrem na Ucrânia, Faixa de Gaza, Líbano e Sudão. Sobre a guerra em Gaza, o grupo pediu um cessar-fogo imediato, a libertação de reféns e condenou ataques contra civis e instalações humanitárias. O BRICS também reafirmou seu apoio à admissão da Palestina como membro pleno da ONU, defendendo a coexistência de dois estados com base no direito internacional.
A situação no Líbano também foi abordada, com a declaração condenando os ataques israelenses que causaram a morte de civis e destruíram infraestrutura civil. O BRICS classificou esses atos como terrorismo e pediu o fim imediato dos conflitos.
A guerra na Ucrânia foi tratada de forma diplomática, com o grupo enfatizando que todos os envolvidos devem respeitar os princípios da Carta da ONU e buscando uma resolução pacífica através do diálogo e da diplomacia.
Por fim, o BRICS criticou as sanções econômicas unilaterais impostas por potências ocidentais, especialmente pelos EUA, contra países como Venezuela, Rússia, Irã, Cuba e China. O professor Paulo Borba Casella observou que, embora o BRICS critique as sanções, a declaração não aborda diretamente as razões que levaram à imposição dessas medidas, como a invasão russa à Ucrânia.

