Na Amazônia, os grandes rios são mais que paisagens: eles são o principal meio de locomoção para as comunidades ribeirinhas, incluindo milhares de crianças que dependem das vias fluviais para chegar às escolas. Quando o nível das águas está alto, trajetos que de canoa ou lancha levam minutos tornam-se longos e cansativos durante a seca. E em uma seca extrema, como a que afeta a região pelo segundo ano consecutivo, a travessia se torna quase impossível, interrompendo a educação de muitos.

O município de Manacapuru (AM) é um dos mais afetados, onde o rio Solimões, principal afluente do Amazonas, registrou na semana passada o nível mais baixo de sua história, apenas 2,06 metros. A cena antes exuberante e cheia de vida agora é desoladora, marcada por bancos de areia e uma paisagem árida. Com os barcos forçados a ancorar a grandes distâncias das vilas, o transporte e o abastecimento foram gravemente comprometidos, e a escassez de água potável, itens de higiene e medicamentos se agravou.

Na comunidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde está localizada a Escola Municipal Lima Bernardo, o rio Solimões se transformou em um vasto deserto de areia. O trajeto do leito seco até a escola exige uma caminhada de meia hora sob o sol escaldante e, muitas vezes, enfrentando tempestades de areia, fenômeno que tem se tornado cada vez mais frequente, segundo os moradores. “Não tem condição para uma criança atravessar essa praia todos os dias”, afirma Romário Aguiar Martins, pescador de 34 anos, que mora com a família em um barco ancorado a 2 km da escola.

A pedagoga Francisca Lira, coordenadora local, relata que a situação é ainda mais difícil para estudantes que vivem em áreas remotas, como os moradores da comunidade Lago do Boné. Para esses alunos, o trajeto começa em canoas que atravessam trechos rasos, seguidos pela lancha até um ponto próximo, antes de enfrentar a caminhada exaustiva até a escola. A viagem completa pode demorar quase três horas, uma jornada que agora é inviável, levando a prefeitura a suspender as aulas em 75 das 111 escolas da região rural.

Ao todo, 4.570 alunos da zona rural de Manacapuru foram impactados. A Secretaria de Educação local informou que os estudantes receberão atividades em casa por meio de apostilas, medida que foi autorizada por decreto de emergência em setembro e que deve durar 15 dias. No entanto, além dos alunos, professores que moram nas áreas urbanas também enfrentam dificuldades para acessar as escolas rurais, expondo-se a riscos nos longos trajetos até as comunidades.

A situação de seca extrema não se limita a Manacapuru. Dados do governo do Amazonas apontam que outros 19 municípios e áreas rurais de Manaus também foram severamente afetados pela estiagem. Segundo comunicado oficial, todos os alunos dessas áreas receberão kits do programa “Merenda em Casa” e material pedagógico do projeto “Aula em Casa”. Entretanto, o governo não especificou o número total de escolas e estudantes impactados.

Em Manacapuru, no primeiro dia da interrupção das aulas, educadores reuniram-se na Escola Lima Bernardo para organizar a distribuição das apostilas para os 180 alunos matriculados. Embora o material tenha sido preparado rapidamente, a logística para levá-lo até todas as famílias representa um desafio, dada a distância e o difícil acesso. Uma professora da escola destacou a importância da ação: “Precisamos encontrar um meio de distribuir as apostilas o quanto antes. Não vai ser fácil.”

A seca histórica não afeta apenas a educação. Com a queda dos níveis dos rios, a segurança alimentar também se torna uma preocupação. Segundo Suely Azevedo, professora do ensino médio, as famílias temem pela falta de alimentos nas escolas, que sempre foram refúgio e garantia de alimentação. “Agora ficou difícil. A água potável é rara, e os recursos estão escassos”, lamenta.

A coordenadora das comunidades da Costa do Pesqueiro, Yolanda Bezerra Matias, confirma que, embora ainda haja alimentos básicos como peixe e mandioca, a água potável e os itens de higiene são os maiores desafios para as famílias. Esse cenário de precariedade já está impactando a saúde dos mais jovens. Ciane Santos, agricultora de 23 anos, conta que sua filha Yasmin, de 2 anos, tem sofrido com brotoejas e coceiras, provavelmente causadas pela qualidade ruim da água disponível. “Demoramos para buscar ajuda médica por causa da dificuldade da viagem. Fomos ontem, mas o calor tornou o retorno exaustivo”, relata a mãe.

Com a continuidade da estiagem, as comunidades ribeirinhas enfrentam não apenas o isolamento, mas também a perda de acesso básico à educação, saúde e alimentos. Para muitos, o cenário parece piorar a cada ano, tornando a adaptação mais difícil e afetando o dia a dia das crianças que dependem dos rios para ir à escola.

 


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