O ex-presidente Jair Bolsonaro negou participação em qualquer trama golpista investigada pela Polícia Federal e classificou as acusações como fruto de perseguição política. Indiciado por crimes como tentativa de golpe de Estado, abolição do Estado Democrático de Direito e organização criminosa, Bolsonaro rejeitou as alegações e reiterou seu compromisso com a Constituição.
“Nunca debati golpe com ninguém. Se alguém viesse falar de golpe comigo, eu perguntaria: ‘E o day after? Como ficamos perante o mundo?’ A palavra golpe nunca esteve no meu dicionário. Jamais faria algo fora das quatro linhas da Constituição,” afirmou Bolsonaro ao retornar a Brasília após férias em Alagoas.
Questionado sobre o risco de ser preso, Bolsonaro admitiu que tal desfecho é possível a qualquer momento. “Eu posso ser preso agora, ao sair daqui (do aeroporto),” declarou. A fala ocorreu dias após a PF prender quatro generais e um agente da própria corporação sob suspeita de envolvimento na articulação golpista.
Bolsonaro também comentou sobre o Projeto de Lei da Anistia, que poderia beneficiar os condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro. Ele afirmou confiar em um acordo com o presidente da Câmara, Arthur Lira, para que o texto seja debatido ainda este ano em uma comissão especial. “Meu indiciamento não tem nada a ver com isto, são coisas diferentes,” pontuou.
Apesar das negativas, a investigação da Polícia Federal reuniu elementos que vinculam Bolsonaro a discussões sobre ações para impedir a posse de Lula. Um dos principais pontos é o depoimento do ex-comandante do Exército Freire Gomes, que afirmou que Bolsonaro discutiu a aplicação de mecanismos como Garantia da Lei e da Ordem (GLO), Estado de Defesa ou Estado de Sítio em uma reunião com os comandantes das Forças Armadas em dezembro de 2022. Gomes disse que, na ocasião, ele e Carlos de Almeida Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica, se opuseram às ideias. O então comandante da Marinha, Almir Garnier Santos, teria apoiado Bolsonaro. Freire Gomes afirmou ainda ter ameaçado prender o ex-presidente caso ele insistisse no plano.
Outra evidência é uma reunião em julho de 2022 no Palácio do Planalto, na qual Bolsonaro, segundo a PF, incitou ações golpistas antes das eleições. “Nós sabemos que, se reagirmos depois das eleições, vai ter um caos no Brasil. Vai virar uma grande guerrilha, uma fogueira,” disse o então presidente, conforme registros da investigação.
Bolsonaro também tentou desqualificar a ideia de que tivesse articulado um golpe, mencionando publicamente que ações golpistas requerem apoio militar, empresarial e logístico, o que, segundo ele, não aconteceu. “Golpe é tanque na rua, é arma, é conspiração, é trazer classes empresariais para seu lado. Nada disso foi feito no Brasil. Nada disso eu fiz, e continuam me acusando por golpe. Golpe usando a Constituição?” questionou durante um ato em São Paulo, em fevereiro deste ano.
A defesa de Bolsonaro insiste que ele “jamais compactuou com qualquer movimento que visasse desconstruir o Estado Democrático de Direito ou as instituições que o sustentam.” Em nota, o ex-presidente classificou os atos investigados como “odiosos” se planejados, mas argumentou que eles não configuram crime. “Podem representar outro tipo de ilícito, inclusive administrativo ou militar, mas não um ilícito penal,” afirmou.
O caso aprofundou tensões dentro do grupo político de Bolsonaro. As acusações contra militares próximos ao ex-presidente, incluindo Braga Netto e outros membros das Forças Armadas, colocam o núcleo bolsonarista em alerta. Enquanto isso, Bolsonaro segue rejeitando as acusações, mas sua admissão sobre a possibilidade de prisão reflete a gravidade da situação.
Os desdobramentos do caso devem continuar influenciando o cenário político, com implicações para o futuro do ex-presidente e de seus aliados. A resposta das instituições ao caso será decisiva para determinar o impacto dessas investigações na dinâmica política do país.
Foto: Reprodução/ Instagram de Jair Bolsonaro

