A nota divulgada pela defesa do ex-ministro da Defesa Walter Braga Netto, respondendo às acusações de envolvimento em uma trama golpista para impedir a posse do presidente Lula, gerou forte irritação entre integrantes do Partido Liberal (PL), partido de Jair Bolsonaro. O texto foi criticado por seu foco em rebater a hipótese de um “golpe dentro do golpe” — em que Braga Netto assumiria o poder no lugar de Bolsonaro — enquanto evitou negar diretamente qualquer participação nos planos golpistas.

Para membros do PL, a abordagem foi considerada um erro estratégico. “Não é hora de bajulação, é hora de defesa técnica e uma gestão de crise profissional”, disse, em reserva, um membro do partido. A insatisfação também decorreu da ausência de consulta ao entorno de Bolsonaro ou ao partido antes da publicação da nota.

Segundo a Polícia Federal, os planos golpistas incluíam a formação de um “gabinete de crise” comandado por Braga Netto e pelo ex-ministro Augusto Heleno. Esse gabinete seria ativado após os assassinatos de Lula, do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Documentos apreendidos levantaram suspeitas, tanto entre os investigadores quanto dentro do bolsonarismo, de que Braga Netto, uma vez no comando, poderia descartar Bolsonaro e instaurar um regime militar.

A nota de Braga Netto, composta por 19 linhas, não nega explicitamente a participação em planos golpistas. Em vez disso, classifica a ideia de um “golpe dentro do golpe” como “fantasiosa e absurda” e enfatiza sua lealdade a Bolsonaro. “Durante o governo passado, [Braga Netto] foi um dos poucos, entre civis e militares, que manteve a lealdade ao Presidente Bolsonaro até o final do governo, em dezembro de 2022, e a mantém até os dias atuais”, afirmou a defesa.

Além de expressar lealdade, a nota menciona a “busca de soluções legais e constitucionais”, sem especificar quais seriam essas soluções ou seus objetivos. A ausência de detalhes e o tom da resposta causaram incômodo e reforçaram a percepção de uma abordagem desastrosa. Segundo integrantes do PL, a nota foi “um tiro no pé”, deixando Braga Netto mais vulnerável politicamente e juridicamente.

Por decisão do ministro Alexandre de Moraes, Braga Netto está proibido de se comunicar com Bolsonaro e Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL. No entanto, seus auxiliares e interlocutores podem manter contato, buscando alinhar o discurso diante das investigações. O desencontro entre as narrativas tem prejudicado a estratégia de defesa do grupo político.

Braga Netto, Bolsonaro e outros 35 investigados foram indiciados pela Polícia Federal na semana passada pelos crimes de tentativa de golpe de Estado, tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito e organização criminosa. Uma das principais evidências contra Braga Netto é a reunião ocorrida em sua residência, em 12 de novembro de 2022, para discutir atentados contra Lula, Alckmin e Moraes.

O local da reunião, a apenas 350 metros da residência de Moraes em Brasília, chama atenção. Braga Netto morava em um condomínio funcional do Ministério da Defesa, na quadra 112 Sul, próximo ao endereço do ministro do STF. O edifício também era residência de outros generais influentes do governo Bolsonaro, como Paulo Sérgio Nogueira e Luiz Eduardo Ramos, o que reforça a suspeita de um planejamento coordenado.

As divergências sobre a abordagem de defesa têm gerado tensão no bolsonarismo. O indiciamento de figuras de alto escalão, como Braga Netto e Bolsonaro, aprofunda a crise interna no grupo político, especialmente em relação às estratégias para responder às acusações. A falta de alinhamento nas narrativas enfraquece a posição do PL, que busca se distanciar de associações mais diretas com a trama golpista.

A postura de Braga Netto, centrada na reafirmação de sua lealdade a Bolsonaro, é vista por aliados como insuficiente para conter os impactos das investigações. Enquanto o cerco jurídico se intensifica, cresce a pressão para que as defesas adotem um tom mais técnico e coordenado, buscando minimizar os danos à imagem do partido e de suas lideranças.

Diante das circunstâncias, a reação pública do PL reflete a crescente preocupação com os desdobramentos do caso, tanto no âmbito judicial quanto político, e sua potencial influência sobre o futuro do partido e de suas figuras de destaque.

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

 


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