O setor imobiliário brasileiro encerra 2024 com resultados sólidos e otimismo em relação às próximas décadas, mas enfrenta desafios que exigem mudanças nas políticas públicas para alcançar seu potencial. Essa foi a análise de Rubens Menin, fundador da MRV e presidente do conselho do Banco Inter, durante o “Summit Imobiliário 2024”, promovido pelo Estadão em parceria com o Secovi-SP.
“Sou muito otimista em relação ao mercado imobiliário, que é bem regulamentado e tem fundamentos sólidos. Temos uma demanda projetada para 35 milhões de unidades habitacionais nos próximos 20 anos, o que é promissor. Porém, faltam políticas públicas mais eficientes e estruturadas”, destacou Menin.
Um dos pontos mais preocupantes, segundo Menin, é o impacto do saque-aniversário do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Criada em 2019, essa modalidade permite que trabalhadores retirem anualmente uma parte do saldo de suas contas no FGTS.
“O FGTS é essencial para o setor habitacional, mas o saque-aniversário compromete seu orçamento futuro. Esse dinheiro, que poderia ser investido em habitação e gerar retorno social e econômico, acaba sendo usado para pagar dívidas ou gastos pontuais, sem benefícios de longo prazo”, criticou Menin.
Embora os bancos estejam se beneficiando da modalidade, ele defendeu que a questão precisa ser urgentemente debatida. “Como estou nos dois lados, na construção civil e no setor bancário, vejo que precisamos pensar no impacto a longo prazo. É uma política que, no formato atual, não é sustentável para o setor imobiliário”, afirmou.
Outro ponto de atenção é a fonte de recursos para o crédito imobiliário. Com restrições ampliadas para a Letra de Crédito Imobiliário (LCI) e a redução de depósitos na poupança, o financiamento do setor está em xeque.
Desde este ano, o prazo para resgate de recursos aplicados em LCIs passou de três para nove meses, tornando menos atrativa essa alternativa de captação. “A poupança já vinha enfrentando dificuldades. Agora, com as restrições à LCI, não há recursos suficientes para sustentar o crédito imobiliário em 2025. É necessário encontrar um equilíbrio”, afirmou Menin.
Rodrigo Luna, presidente do Secovi-SP, complementou a análise de Menin, destacando que, apesar dos números positivos de 2024, o cenário é desafiador.
“Enfrentamos taxas de juros incompatíveis com um setor de longo prazo, além de uma alta demanda por habitação social. A preocupação com o funding e o equilíbrio macroeconômico é crescente, e o setor precisa de suporte para continuar entregando resultados”, disse Luna.
Outro gargalo apontado no evento foi a crescente falta de mão de obra na construção civil. Menin alertou para a dificuldade de encontrar trabalhadores qualificados, situação que pode se agravar nos próximos anos.
“Já enfrentamos escassez de mão de obra, e o problema só deve piorar. A solução passa pela capacitação, mas precisamos agir rapidamente para evitar um impacto ainda maior na produtividade do setor”, destacou o empresário.
Ele também mencionou que os programas sociais, como o Bolsa Família, representam uma competição na busca por trabalhadores. “Esses benefícios são necessários, mas acabam sendo concorrentes do setor. É uma situação inusitada: competimos com o seguro-desemprego e outros auxílios sociais pela força de trabalho”, afirmou.
Luna reforçou a preocupação com a falta de perspectiva de saída dos programas sociais. Atualmente, mais de 23 milhões de pessoas estão cadastradas no Bolsa Família, muitas delas sem expectativa de inserção no mercado de trabalho.
“Essas pessoas não entram no cálculo oficial de desemprego, mas sua dependência de benefícios é preocupante. Precisamos criar políticas que ofereçam oportunidades de autossuficiência, para que se tornem economicamente ativas e contribuam para o desenvolvimento do país”, disse Luna.
Ele destacou os avanços na qualidade do emprego na construção civil, sugerindo que o setor pode ser uma porta de entrada para essas pessoas no mercado formal.
Apesar dos desafios, o clima no evento foi de otimismo em relação ao potencial de crescimento do setor imobiliário. Menin defendeu a importância de um diálogo mais intenso entre governo e setor privado para resolver questões estruturais, como o financiamento do crédito habitacional e a capacitação da mão de obra.
“O setor tem bases sólidas, mas é necessário garantir recursos sustentáveis para continuar atendendo à demanda habitacional. Também precisamos de políticas públicas que incentivem o emprego e a qualificação, criando um ciclo virtuoso de crescimento econômico”, concluiu o empresário.
Luna compartilhou a visão, destacando que 2024 foi um ano de números expressivos, mas que o setor precisa estar preparado para enfrentar as incertezas econômicas de 2025. “O trabalho para garantir funding e equilíbrio fiscal começa agora, com planejamento e ação conjunta entre governo e mercado”, afirmou.
Foto: Divulgação


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