O Exército restringiu nesta sexta-feira (29) o acesso à monografia escrita pelo general da reserva Mario Fernandes, figura central na investigação da Polícia Federal (PF) sobre uma suposta trama golpista no final do governo Jair Bolsonaro (PL). O trabalho, intitulado “Comando de Operações de Unidades Especiais (COpUEsp): análise crítica”, foi apresentado em 2002 como conclusão de curso na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme).

De acordo com a “Folha de São Paulo’, o trabalho chegou a ser disponibilizado por cerca de 10 minutos para consulta na biblioteca da instituição. Contudo, a bibliotecária responsável informou que a obra era sigilosa e retirou o exemplar da mesa, sem explicar o motivo da restrição. O Exército ainda não se pronunciou oficialmente sobre a proibição.

Mario Fernandes, atualmente em prisão preventiva, é um dos 37 indiciados pela PF sob suspeita de participação em atos golpistas. Segundo as investigações, o general teria incentivado a movimentação ao enviar uma carta ao então comandante do Exército, general Freire Gomes, incitando-o a aderir ao plano.

A defesa do general, conduzida pelo advogado Raul Livino, afirmou que só se manifestará após um encontro com o cliente no presídio do Rio de Janeiro, previsto para a próxima semana.

A monografia de Mario Fernandes faz uma análise das operações de unidades especiais, comparando-as com estruturas similares em exércitos de outros países. O texto também apresenta uma proposta de organograma para o Comando de Operações Especiais, que o general viria a dirigir em 2018.

“No Brasil, embora as unidades especiais ainda estejam em estado embrionário, as autoridades militares já reconheceram a importância das Forças Especiais nos campos social, econômico, político e militar, priorizando seu treinamento e equipagem”, escreveu Fernandes.

O trabalho, produzido quando Fernandes era major, inclui um agradecimento ao general Luiz Eduardo Ramos, ex-ministro de Bolsonaro, e ao general Cesar Augusto Nardi de Souza, ex-membro do Alto Comando do Exército, que fez parte da banca de avaliação.

O general Mario Fernandes teve longa ligação com o 1º Batalhão de Forças Especiais, conhecido como “kids pretos” devido aos gorros pretos usados por seus integrantes. Ele integrou a unidade entre 1988 e 1993, comandando-a em 2008. Essa tropa de elite está no centro da investigação da PF sobre a suposta organização criminosa ligada aos atos golpistas durante o governo Bolsonaro.

O relatório final da PF, enviado à Procuradoria-Geral da República, conclui que Mario Fernandes foi um dos principais articuladores da trama. Agora, cabe à PGR decidir se arquiva o caso, solicita mais investigações ou apresenta denúncia formal contra os suspeitos.

O acesso restrito à monografia e a participação de Mario Fernandes no comando de operações especiais levantam questões sobre o papel das forças especiais na suposta conspiração, alimentando o debate sobre a necessidade de maior transparência nas investigações.

 

Foto: Divulgação Exército