A Polícia Federal (PF) abriu uma nova frente de investigação para apurar o vazamento das informações contidas na delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL). Nesta sexta-feira (6), o general Mauro Lourena Cid, pai do ex-militar, prestou depoimento à PF no Rio de Janeiro, onde negou ter repassado quaisquer detalhes sobre o acordo de colaboração firmado pelo filho.
A investigação teve início após a descoberta de um documento na mesa de um assessor do general Walter Braga Netto, na sede do PL. O relatório da PF aponta que o material contém perguntas e respostas relacionadas à delação de Mauro Cid, indicando possíveis tentativas de obter informações privilegiadas. Entre os temas abordados, destacam-se a “minuta do artigo 142” e o envolvimento de militares em atos como o plano Punhal Verde e Amarelo, que previa ataques contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e o ministro Alexandre de Moraes, do STF.
O documento encontrado também menciona eventos críticos, como o incêndio de veículos em frente à sede da PF em Brasília, a bomba em um caminhão-tanque próximo ao aeroporto da capital federal e os ataques aos três Poderes em 8 de janeiro de 2023. A PF aponta que o documento evidencia ações concretas do grupo para acessar as informações confidenciais da colaboração premiada de Mauro Cid.
Mensagens trocadas entre o general Mário Fernandes e o coronel Jorge Kormann indicam que os pais de Mauro Cid se reuniram com Braga Netto e Augusto Heleno, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). Nas mensagens, afirmaram que as reportagens divulgadas sobre a delação de Mauro Cid eram falsas. Essas conversas ocorreram poucos dias após o acordo de colaboração ser firmado, em setembro de 2023, quando o ex-ajudante de ordens ainda estava preso.
Aliados de Braga Netto defendem que o documento encontrado na sede do PL era apenas um roteiro preparatório para depoimentos na CPI. Apesar disso, a PF continua investigando a possível origem e uso indevido dessas informações.
Mauro Cid, peça-chave em várias investigações envolvendo Jair Bolsonaro, firmou acordo de delação premiada homologado pelo STF em setembro de 2023. Suas declarações têm subsidiado apurações sobre casos como as joias sauditas, a falsificação de cartões de vacina e a tentativa de golpe de Estado. Desde o acordo, Cid já prestou 14 depoimentos à PF.
O general Mauro Lourena Cid também é investigado no caso das joias sauditas. Ele teria participado das negociações para a venda dos itens nos Estados Unidos, levantando suspeitas sobre sua atuação.
Mesmo após firmar o acordo de delação, Mauro Cid enfrentou riscos de perdê-lo. Em março de 2024, áudios vazados em que ele criticava Alexandre de Moraes e a PF geraram uma nova prisão temporária. Contudo, após prestar esclarecimentos ao ministro do STF, ele foi solto em maio e manteve os benefícios do acordo.
No dia 21 de novembro, Cid foi novamente convocado para uma audiência com Alexandre de Moraes após a PF apontar possíveis omissões e contradições em seus depoimentos. Apesar das dificuldades, Moraes decidiu manter os benefícios da colaboração premiada.
Com a nova frente de apuração aberta pela PF, o foco está em identificar quem teve acesso indevido ao conteúdo da delação e qual foi o impacto disso nas investigações em andamento. A suspeita de que aliados de Bolsonaro buscavam informações para se proteger fortalece o cenário de tensão em torno das denúncias e reforça o papel central de Mauro Cid nas apurações relacionadas ao governo do ex-presidente.
A delação do ex-ajudante de ordens segue sendo uma das principais fontes de informação sobre as possíveis irregularidades cometidas por Jair Bolsonaro, seus aliados e integrantes do governo, ampliando o alcance das investigações e as implicações políticas e jurídicas para os envolvidos.
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