O deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), favorito para assumir a presidência da Câmara dos Deputados em fevereiro, teve seu primeiro grande momento político aos 25 anos, quando foi escolhido pelo então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (à época no PMDB-RJ), para presidir a CPI da Petrobras em 2015. A comissão, criada para investigar denúncias da Operação Lava Jato, tornou-se símbolo de controvérsias e acusações, envolvendo o Ministério Público e figuras políticas de destaque.

Desde o início, a CPI enfrentou críticas. A escolha de Hugo Motta gerou protestos de parlamentares, que apontaram que ele e outros membros da comissão haviam recebido doações eleitorais de empreiteiras investigadas pela Lava Jato – prática legal à época. Durante oito meses de trabalhos e dezenas de sessões, apenas um político, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari, teve seu indiciamento solicitado pela comissão.

A atuação da CPI foi amplamente questionada, especialmente por seu foco limitado, o que levantou suspeitas de favorecimento a Eduardo Cunha. Em um parecer apresentado no fim de 2015, o então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, acusou Cunha de usar aliados em posições estratégicas da CPI para constranger testemunhas e proteger a si mesmo de investigações.

A proximidade de Hugo Motta com Cunha era amplamente conhecida. Uma imagem marcante do período mostra ambos juntos em um estádio de Brasília durante um jogo do Flamengo. Em seu livro “Tchau, Querida”, Cunha descreve Hugo Motta como um aliado leal e “cumpridor de compromissos”.

Entre as ações controversas da CPI, esteve a convocação da advogada Beatriz Catta Preta, que representava delatores da Lava Jato. Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), essa convocação ocorreu após um de seus clientes, Julio Camargo, acusar Cunha de envolvimento em um esquema de propinas relacionado a navios da Petrobras. A PGR apontou essa movimentação como tentativa de intimidar os delatores.

Outro episódio polêmico foi a contratação da empresa de investigação financeira Kroll por R$ 1,2 milhão. Oficialmente, a empresa auxiliaria nas investigações da comissão, mas o Ministério Público alegou que o objetivo era encontrar falhas nos acordos de colaboração para anular depoimentos que comprometessem Cunha. Delatores da Odebrecht afirmaram que a ideia de contratar a Kroll foi discutida entre Cunha e executivos da empreiteira com o propósito de enfraquecer a Lava Jato.

As suspeitas sobre o uso político da CPI chegaram ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em maio de 2016, o ministro Teori Zavascki determinou o afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara, citando o “inegavelmente suspeito” cenário envolvendo a CPI da Petrobras. Embora Hugo Motta não tenha sido citado diretamente na decisão, sua atuação na comissão foi considerada parte de um contexto de manobras políticas conduzidas por Cunha.

O afastamento de Cunha pelo STF foi um marco histórico, representando uma intervenção inédita do Judiciário na chefia de um outro Poder. O episódio foi decisivo para a cassação de Cunha em setembro de 2016 e sua posterior prisão em outubro do mesmo ano. Apesar de ter sido condenado por corrupção em dois processos, as sentenças foram anuladas anos depois, e os casos seguem tramitando na Justiça Eleitoral.

Hugo Motta, por sua vez, não enfrentou processos criminais relacionados à sua atuação na CPI. Contudo, sua gestão na comissão deixou um legado de episódios controversos que marcaram a política brasileira.

A CPI da Petrobras também entrou para o “folclore político” de Brasília por momentos inesperados. Em uma das sessões, um assessor parlamentar soltou ratos no plenário. Em outra ocasião, a delatora Nelma Kodama cantou a música “Amada Amante”, de Roberto Carlos, durante seu depoimento.

Hugo Motta também protagonizou um episódio curioso ao sugerir a exumação do corpo do deputado José Janene (PP-PR), figura central nas investigações da Lava Jato, falecido em 2010. Motta afirmou desconfiar que Janene pudesse estar vivo, mas a exumação nunca ocorreu.

Eduardo Cunha sempre negou as acusações de obstrução das investigações da CPI. Ele alegava que a comissão tinha autonomia para aprovar decisões, como a contratação da Kroll, e que apenas autorizou o orçamento necessário. Cunha também acusou a PGR de perseguição política e afirmou que não havia provas de interferência direta em convocações ou outras ações da CPI.

Mesmo diante de acusações graves, Cunha e Hugo Motta mantiveram a narrativa de que suas ações eram pautadas por critérios técnicos e legais. Ainda assim, o contexto de pressões e manobras nos bastidores reforçou a imagem de Hugo Motta como um aliado estratégico de Cunha durante o turbulento período da Lava Jato.

Hugo Motta, atualmente favorito para a presidência da Câmara, construiu sua trajetória política marcada pela proximidade com Eduardo Cunha e por episódios controversos em sua gestão na CPI da Petrobras. O deputado paraibano ganhou destaque por sua habilidade de articulação, mas também enfrenta críticas por seu histórico político.

Com as eleições para a Mesa Diretora da Câmara previstas para fevereiro, sua possível ascensão ao comando da Casa reacende o debate sobre sua atuação no passado. Embora não tenha sido processado criminalmente, o envolvimento em episódios polêmicos na CPI da Petrobras continua sendo uma sombra em sua carreira.

Hugo Motta representa um novo capítulo na política brasileira, que continua sendo influenciado pelos desdobramentos da Operação Lava Jato e pelas memórias de uma CPI que, apesar de seu objetivo oficial, ficou marcada mais pelas controvérsias e bastidores do que por seus resultados concretos. Sua eventual eleição como presidente da Câmara será mais um teste para sua habilidade de navegar no cenário político nacional, que ainda carrega as marcas das turbulências vividas na última década.

Foto: Folhapress


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