O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, fez duras críticas aos governadores Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, em razão das reações deles aos vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no programa de renegociação de dívidas dos estados. Mercadante afirmou que há falta de reciprocidade por parte dos chefes do Executivo estadual nas relações com o governo federal.
A polêmica começou após Lula decidir vetar trechos do projeto de renegociação de dívidas. Leite e Zema utilizaram as redes sociais para expressar insatisfação e indicaram que irão articular, junto a parlamentares, a derrubada dos vetos no Congresso Nacional. O movimento gerou tensão no cenário político e levou Mercadante a tecer críticas públicas sobre o comportamento dos governadores.
Em entrevista ao jornal “Folha de S. Paulo”, Mercadante afirmou compreender que os governadores defendam os interesses de seus estados, mas lembrou que as renegociações de dívidas já vêm sendo feitas ao longo dos anos, resultando em impactos significativos na dívida pública. “A renegociação sancionada pelo presidente Lula tem um impacto estimado de R$ 106 bilhões em cinco anos. Apenas quatro estados — Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul — concentram 90% dos R$ 765 bilhões que a União tem a receber”, detalhou o presidente do BNDES.
Mercadante ressaltou que o governo federal tem adotado uma postura republicana, com ações que buscam atender estados e municípios de forma ampla. Ele destacou o papel do BNDES e do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) nesse esforço, mas reclamou da falta de reconhecimento de alguns governadores. “É muito difícil avançar quando não há o mínimo de reciprocidade por parte de alguns governadores de oposição”, lamentou.
O caso do Rio Grande do Sul foi classificado por Mercadante como “inacreditável”. Ele mencionou o apoio substancial que o estado recebeu do governo federal após as fortes chuvas que devastaram a região no ano passado. Segundo o presidente do BNDES, foram destinados R$ 25,7 bilhões a 464 municípios gaúchos. Além disso, foram realizadas mais de 8.500 operações de crédito, 5.000 de garantia e suspensas as cobranças de 72 mil contratos por um ano.
Mercadante também destacou a concessão de crédito emergencial para empreendedores gaúchos com condições especiais, incluindo taxa de juros de apenas 1% ao ano e 12 meses de carência. “O BNDES ajudou a reconstruir a economia do Rio Grande do Sul. Os resultados do PIB estadual em 2024 certamente refletirão a eficácia dessas medidas”, declarou.
Apesar dos esforços, Mercadante lamentou que o governador Eduardo Leite nunca tenha demonstrado reconhecimento público pelas ações. Pelo contrário, Leite criticou o governo federal e anunciou que trabalhará contra os vetos presidenciais. “Mesmo diante de uma resposta inédita e eficaz, o governador atacou a renegociação das dívidas e manifestou ‘indignação’ com a decisão do governo federal”, criticou Mercadante.
Sobre Minas Gerais, Mercadante destacou a carteira de R$ 15,5 bilhões do BNDES destinada ao estado, com foco na estruturação de projetos de concessão e Parcerias Público-Privadas (PPPs). Ele também mencionou que o banco cedeu um servidor ao governo estadual a pedido do governador Romeu Zema, mesmo enfrentando um déficit de funcionários devido à ausência de concursos por mais de 12 anos.
Além disso, o presidente do BNDES mencionou os esforços da instituição para melhorar as condições das regiões afetadas pela tragédia de Mariana (MG), com um investimento de R$ 49,1 bilhões no Fundo Rio Doce. Ainda assim, Zema acusou o governo federal de sobrecarregar os estados ao tentar “cobrir a gastança” da União, o que foi duramente criticado por Mercadante.
O governador Ibaneis Rocha (MDB), do Distrito Federal, também foi alvo de críticas. Na última semana, o BNDES aprovou R$ 400 milhões para a expansão da linha 1 do metrô de Brasília, com a construção de duas novas estações. Mercadante lamentou que, mesmo com o anúncio, não houve qualquer manifestação de agradecimento por parte de Ibaneis. “O governo anterior não ajudou a expandir um único centímetro do metrô, mas, ainda assim, o governador afirma: ‘quero distância do Lula’”, destacou o presidente do BNDES.
Ao final, Mercadante defendeu os esforços do governo Lula para reconstruir o pacto federativo e as instituições democráticas no Brasil. Ele lamentou que algumas lideranças ainda estejam “contaminadas por um passado recente que envenenou as relações republicanas”. Contudo, ressaltou que alguns governadores de oposição têm demonstrado respeito e disposição para o diálogo, mesmo em meio às divergências.
“O Brasil só será reconstruído com a superação do negacionismo e com a valorização do pacto federativo. É essencial que líderes estaduais reconheçam a importância do diálogo republicano e da democracia, um regime extraordinário que permite a participação até mesmo daqueles que o agridem”, concluiu Mercadante.
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

