O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), afirmou que a redução das penas dos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 é “pertinente”, mas ressaltou que anistiar esses crimes “é estimular (que aconteçam) outra vez”. Em entrevista, o senador também sinalizou abertura para discutir mudanças na Lei da Ficha Limpa, especialmente no prazo de inelegibilidade.

Ao comentar sobre a possível votação de uma anistia aos réus do 8 de janeiro, Wagner declarou: “Pessoalmente acho que a anistia, não. Anistiar é estimular outra vez. Sou contra e não sei se é fácil passar aqui. Está cada dia mais provado que havia um plano”. No entanto, ele se mostrou favorável à modulação das penas pelo Judiciário. “Eu acho que a modulação é pertinente, porque os inspiradores e financiadores é que deviam ter pena mais forte. Tem uma porção de gente que não sei se veio para passear ou para efetivamente bagunçar. Mas não dá para anistiar”, argumentou.

O senador também comentou sobre o impacto político da anistia e o movimento em defesa de Bolsonaro. “Porque fez dois anos. Como está apertando, eles provavelmente querem salvar os financiadores e o próprio Bolsonaro, que estimulou (um golpe). Esse tipo de crime, para mim, é um dos mais graves que tem, que é pregar um regime autoritário, questionar uma eleição. Por isso acho que não é fácil a anistia, não tem um fim de um ciclo para justificar isso”.

Sobre mudanças na Lei da Ficha Limpa, Wagner afirmou que ajustes são necessários, mas que eventuais alterações não devem beneficiar Bolsonaro na eleição de 2026. “Acho que qualquer coisa para alterar que impacte na eleição não pode valer para essa”. O senador também questionou o início do prazo de inelegibilidade: “Um cara comete um crime, começa a ser investigado e passa à condição de réu. Quando ele passa à condição de réu, na minha opinião, já deveria estar contando (prazo de inelegibilidade), porque, perante a opinião pública, mesmo que ele não esteja condenado, ele já está meio baleado”.

Para Wagner, há espaço para rever prazos da Ficha Limpa. “Isso tem. Tem muita gente que defende que deveria impedir de se eleger na próxima eleição. Tem várias questões na Justiça. Que dia começa a contar (o prazo de inelegibilidade)? Por conta de um ou dois dias, tem diferença. Se fosse por uma eleição, diria que pula uma eleição e na outra ele pode. Esse seria o conceito de oito anos”, explicou.

Sobre a sucessão de Lula, Wagner negou que Bolsonaro seja o único capaz de rivalizar com o atual presidente. “Não. Não tenho essa torcida obsessiva, de que ele tem que ficar interditado para não ser candidato. Para mim, não muda muito. Ele pode estar vitimizado na cabeça dos fanáticos e o nome que ele abençoar eles vão apoiar”. Wagner acredita que Bolsonaro conseguirá transferir votos com facilidade para outro nome. “Sim. Como as coisas estão muito fanatizadas, não acho que eles perdem muito se ele sai de cena. Acho que a gente tem a mesma chance de ganhar, não acho que a chance de ganhar contra Eduardo (Bolsonaro) ou Michelle é maior do que contra ele”, avaliou.

O senador também enfatizou a relevância da economia para as eleições de 2026. “Sempre acho que a economia tem um papel fundamental no processo eleitoral. É óbvio que hoje tem outros valores incorporados, a fanatização, a forma de comunicação com as redes sociais, mas a prosperidade acaba sendo superior a isso. As pessoas, no senso comum, não ficam discutindo muito a democracia. Querem discutir se a vida está melhorando”, argumentou.

Sobre a reforma ministerial, Wagner indicou que Lula ainda está avaliando mudanças na Esplanada, mas negou que haja definições concretas. “Ele tem o direito de fazer balões de ensaio. Um bobo vai lá e fala na rua (sobre uma possível mudança) e se queima. Até agora ele tem projeções do que pode fazer. Mas ele só vai anunciar quando tiver o mapa completo”.

Quanto ao vice-presidente Geraldo Alckmin, Wagner acredita que ele seguirá no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. “Falavam do Alckmin para o Ministério da Defesa, mas ele (Lula) já combinou com o José Múcio para ficar até o final do ano. Para alguém que vai ser candidato ser mudado (no começo do ano que vem) é ridículo. Vai sentar em janeiro para sair em março. Então, na minha opinião, não mexe”.

O senador também comentou a situação de Arthur Lira e sua relação com o governo. “Já tem um ministro do PP, não sei se seria uma troca ou se seria mais um. Se seria mais um, ficaria o PP com dois ministros e o presidente da Caixa. Não é pouca coisa. E com o Ciro (Nogueira, presidente do PP) descendo madeira de manhã, tarde e noite. Essas coisas também têm um simbolismo”.

Em relação à pauta econômica, Wagner afirmou que a compensação da desoneração para 2025 ainda não está sendo discutida. “E nem compensou. Aquela lista de coisas apresentadas pelo Senado, eles sabiam que não ia dar para cobrir. Aqui tem uma contradição. Todo mundo fala de responsabilidade fiscal e todo mundo quer fazer uma gentileza com alguém seu, seja grupo social ou econômico”.

Por fim, o senador falou sobre a postura de Lula quanto à contenção de gastos. “Lula é um cara extremamente responsável do ponto de vista fiscal. Ele sempre teve essa visão de que a inflação é o pior dos dramas para a população mais carente. Ele fala isso e fica no caminho do meio. Diz que por ele, não (discute novos cortes de gastos). Mas, se precisar… Se a situação for apertada do ponto de vista fiscal, alguma coisa ele vai topar fazer”.

Jaques Wagner reafirmou sua proximidade com o presidente e destacou que Lula ainda avaliará as mudanças estratégicas do governo. “Nos meus dois primeiros anos como ministro do Trabalho, em 2003 e em 2004, ele não deu aumento no poder de compra do salário mínimo. Eu defendi e ele sempre defendeu na campanha, mas ele ouviu o lado conservador”.

Foto: Roque de Sá/Agência Senado


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