O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes afirmou ter identificado um juiz do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que fornecia informações sobre sua localização a membros das Forças Especiais do Exército, conhecidos como “kids pretos”. Segundo a delação premiada do ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL), Mauro Cid, os militares planejavam prender e assassinar Moraes. O sigilo do documento foi levantado nesta quarta-feira, 19.
Durante um dos depoimentos, Cid relatou a Moraes que não sabia a razão exata pela qual o ministro era monitorado, pois as Forças Armadas compartimentalizavam informações em suas operações. Ele revelou que o coronel do Exército Marcelo Câmara, também ex-assessor de Bolsonaro, obtinha dados sobre a agenda e os deslocamentos de Moraes por meio de um juiz do TSE.
Moraes corrigiu Cid, esclarecendo que se tratava de um juiz, e não de um ministro, e que sua identidade já havia sido descoberta. Entretanto, não revelou publicamente o nome do magistrado. Além de fornecer informações sobre a rotina de Moraes, o juiz auxiliava as Forças Armadas na elaboração de petições destinadas à Justiça Eleitoral para obter informações sobre as urnas eletrônicas.
“Um dos contatos dele [Marcelo Câmara] era um juiz do TSE. Inclusive, era ele quem ajudava as Forças Armadas a redigir documentos encaminhados pelo general Paulo Sérgio para Moraes. Ele indicava os rumos a serem seguidos, sugeria redações, mas eu não sei efetivamente o nome dele”, relatou Cid.
Segundo o depoimento, o monitoramento de Moraes foi solicitado inicialmente pelos “kids pretos” Rafael Oliveira e Hélio Ferreira Lima, ambos identificados pela Polícia Federal como integrantes da operação “Copa 2022”, que previa a captura e o assassinato do ministro.
Em dezembro, próximo ao Natal, o ex-presidente Jair Bolsonaro também teria determinado que Moraes fosse vigiado. De acordo com Cid, Bolsonaro recebeu a informação de que o então vice-presidente Hamilton Mourão estava se encontrando com Moraes em São Paulo, o que teria motivado a ordem de monitoramento.
Cid afirmou não ter conhecimento de planos mais graves relacionados ao ministro. “Eu não imaginava que se tratava de algo tão sério, como sequestro ou assassinato. Não sabia até onde eles pretendiam chegar”, declarou em depoimento.
Na terça-feira, a Procuradoria-Geral da República denunciou Jair Bolsonaro, Marcelo Câmara, Rafael Oliveira, Hélio Lima, Mauro Cid e outras 28 pessoas. Os crimes imputados incluem organização criminosa armada, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e dano ao patrimônio da União.
Em nota divulgada na noite de terça-feira, 18, a defesa de Bolsonaro classificou a denúncia como “inepta”, “precária” e “incoerente”. Os advogados do ex-presidente alegam que a acusação se baseia em um acordo de colaboração “fantasioso” de Mauro Cid.
A defesa de Bolsonaro reforçou que, mesmo após quase dois anos de investigações, “nenhum elemento concreto foi encontrado para conectar o ex-presidente à narrativa apresentada na denúncia”.
Foto: Luiz Roberto/Secom/TSE

