Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira (10) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com o Instituto Datafolha, revelou que 91,8% das mulheres que sofreram violência no último ano passaram por essa situação na presença de terceiros. Além disso, um em cada quatro casos ocorreu diante do filho da própria vítima, evidenciando o impacto da violência doméstica na estrutura familiar.

O levantamento faz parte da quinta edição da pesquisa “Visível e Invisível: Vitimização de Meninas e Mulheres”, realizada a cada dois anos, e busca compreender a violência contra a mulher para além dos registros policiais. O estudo foi conduzido entre os dias 10 e 14 do mês passado, em 126 municípios brasileiros, com entrevistas presenciais de 793 mulheres com 16 anos ou mais.

Os dados mostram que, entre as testemunhas das agressões, 47,3% eram amigos ou conhecidos, 27% eram filhos das vítimas e 12,4% eram outros parentes. Apenas 7,7% dos casos foram presenciados por pessoas desconhecidas. A inclusão da pergunta sobre a presença de terceiros na pesquisa revelou que, em 86,7% das situações, a violência ocorreu na presença de um conhecido da vítima.

Para Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, esses números refletem uma cultura de conivência com a violência contra a mulher, muitas vezes justificada pelo ditado popular “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. A especialista destaca que essa conivência pode estar relacionada à falta de compreensão sobre a gravidade das agressões quando não há violência física explícita. “Muitas vezes, as pessoas percebem que uma mulher está em um relacionamento abusivo, mas, por não presenciarem agressões físicas diretas, acabam não intervindo“, explicou.

Outro ponto preocupante do estudo é a escalada da violência. Segundo Bueno, os casos mais graves, como feminicídios, geralmente ocorrem após uma série de agressões consideradas menores, tornando imprevisível o momento em que a situação pode se agravar. “O tempo entre uma agressão verbal e um feminicídio pode ser muito curto. Por isso, é fundamental combater todas as formas de violência desde o início”, alertou.

Além dos danos imediatos à vítima, a pesquisa ressalta os impactos da exposição à violência doméstica na infância. Crianças que crescem em ambientes violentos podem apresentar baixa autoestima, retraimento social, depressão e ansiedade, além de outros efeitos psicossociais e comportamentais adversos. “O quanto isso, de algum modo, alimenta essa máquina que se reproduz? Como mudar essa cultura se há filhos nesses ambientes que naturalizam comportamentos violentos?”, questionou Bueno.

A análise do perfil das vítimas apontou que as mulheres mais afetadas pela violência estão na faixa etária de 25 a 34 anos (43,6%), seguidas por aquelas entre 35 e 44 anos (39,5%) e entre 45 e 59 anos (38,2%). Apesar disso, a violência contra a mulher apresenta alta prevalência em todas as faixas etárias, especialmente entre as que têm entre 16 e 59 anos.

Outro dado alarmante da pesquisa é que, no último ano, cerca de 21,4 milhões de mulheres brasileiras foram vítimas de algum tipo de violência, representando 37,5% da população feminina com 16 anos ou mais. Entre as formas mais comuns de agressão relatadas estão humilhações verbais e violência física, como tapas, chutes e empurrões.

O estudo reforça a necessidade de ampliar o debate sobre a violência de gênero no Brasil e de adotar políticas públicas que incentivem denúncias e protejam as vítimas. Segundo os especialistas, é fundamental fortalecer a rede de apoio às mulheres, promovendo campanhas de conscientização, investindo na capacitação de profissionais da segurança pública e garantindo atendimento especializado para vítimas de violência doméstica.

A pesquisa “Visível e Invisível” destaca um cenário preocupante, mas também aponta caminhos para enfrentar essa realidade. O desafio agora é transformar os dados em ações concretas que protejam mulheres e crianças, rompendo com o ciclo de violência e promovendo uma cultura de respeito e segurança.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Br


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