A cidade de Belo Horizonte foi neste domingo (30) um dos principais palcos de manifestações em defesa da democracia e contra a anistia aos envolvidos nos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. O ato na capital mineira ocorreu às 9h, na Praça da Independência, reunindo militantes, lideranças políticas e movimentos sociais que lembraram também os 61 anos do golpe militar de 1964. A mobilização integra uma série de manifestações realizadas em diversas cidades brasileiras entre os dias 28 de março e 1º de abril.
A movimentação ganhou força após o Supremo Tribunal Federal tornar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) réu por sua suposta participação em uma tentativa de golpe de Estado. A decisão da Corte impulsionou entidades como as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo a retomarem o debate sobre os riscos à democracia e a se posicionarem firmemente contra qualquer articulação no Congresso em favor de anistia aos golpistas de 8 de janeiro.
Belo Horizonte, assim como outras capitais e cidades do interior, atendeu ao chamado e ocupou as ruas. A manifestação na Praça da Independência teve falas lembrando os crimes da ditadura militar, a importância da justiça de transição e críticas à omissão do governo federal, que, pelo segundo ano consecutivo, decidiu não realizar cerimônias oficiais na data que marca o golpe de 1964.
Em 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva orientou seus ministros a evitarem qualquer manifestação pública, buscando evitar tensões com os militares. Em 2025, mesmo com o novo cenário político e a reabertura do debate sobre autoritarismo, a postura foi mantida, o que gerou desconforto em parte da esquerda.
Apesar da ausência de ações institucionais por parte do Planalto, movimentos sociais, partidos políticos e entidades da sociedade civil optaram por manter viva a memória histórica nas ruas. Em São Paulo, por exemplo, a manifestação central também ocorreu neste domingo (30), com caminhada da avenida Paulista até o antigo DOI-Codi, local símbolo da repressão durante a ditadura. Estiveram presentes nomes como Lindbergh Farias (PT-RJ), Erika Hilton (PT-SP) e Guilherme Boulos (PSOL-SP).
Além das frentes populares, o grupo Prerrogativas articula um ato na segunda-feira (31), na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com o mote “Sem Anistia”. A atividade contará com figuras históricas do PT, como José Dirceu e José Genoino, reforçando o repúdio ao perdão dos envolvidos no 8 de janeiro e reafirmando o compromisso com a memória do golpe militar de 1964.
O ex-presidente da Comissão da Verdade de São Paulo, Adriano Diogo (PT), atribuiu à repercussão do documentário “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar, o incentivo necessário para que os movimentos retomassem o debate. O filme narra a história do deputado Rubens Paiva, morto pela ditadura, e, segundo ele, ajudou a mudar a conjuntura. “A família Paiva foi recebida no Planalto. O filme teve um impacto fundamental”, afirmou.
Organizações como CUT, MST, MTST, UNE e partidos como PT, PSOL, PCdoB, PV e Rede aderiram aos atos em dezenas de cidades. Em Belo Horizonte, a mobilização teve cartazes, faixas e palavras de ordem exigindo justiça, memória e verdade. O clima era de firmeza e respeito às vítimas da ditadura, mas também de alerta contra novas ameaças.
Ana Paula Ribeiro, coordenadora nacional do MTST e da frente Povo Sem Medo, reforçou a importância simbólica de associar os julgamentos de Bolsonaro à memória do golpe de 1964. “Ele negou o golpe, exaltou torturadores e fortaleceu a presença política dos militares. Estar nas ruas hoje é também impedir que isso se repita”, declarou.
Ela também lembrou que os movimentos sociais sempre ocuparam as ruas em 31 de março, independentemente da posição do governo federal. “Nossa atuação é contínua. A ausência do governo não nos silencia. Seguimos por memória, justiça e democracia”, completou.
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, por sua vez, divulgou nota afirmando seu compromisso com a democracia e destacou ações realizadas em março, como o pedido de desculpas da ministra Macaé Evaristo às famílias de mortos e desaparecidos políticos em decorrência da negligência do Estado na vala clandestina de Perus.
Já Marco Aurélio de Carvalho, presidente do grupo Prerrogativas, defendeu a postura de Lula, afirmando que o presidente vem celebrando a democracia desde os atos de 8 de janeiro e que a sociedade civil deve ocupar seu papel. “O presidente faz sua parte. Cabe a nós, como cidadãos, fazer a nossa”, disse.
O deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP), nas redes sociais, também reforçou a convocação para os atos, declarando: “O Brasil exige justiça”. Para ele, as articulações no Congresso em favor da anistia são uma ameaça direta ao Estado democrático de direito.
Com a presença firme de Belo Horizonte neste domingo, a cidade reafirma seu papel histórico nas lutas democráticas. Os gritos de “sem anistia” ecoaram na Praça da Independência e se somaram às vozes de outras capitais e cidades do interior, num recado claro: o Brasil não esquece, não perdoa e não permitirá retrocessos. A memória segue viva — nas ruas, na arte, na história e na resistência cotidiana de quem insiste em dizer: ditadura nunca mais.
Foto: Simeão

