Os investimentos dos países árabes do Golfo no Brasil vêm se intensificando nos últimos anos e já superam o valor de 14 bilhões de reais, segundo levantamento do Sovereign Wealth Fund Institute (SWFI), feito a pedido do Estadão/Broadcast. O estudo aponta que o estoque de investimentos dos fundos soberanos dos países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) no Brasil ultrapassa 14 bilhões de dólares, valor que pode ser ainda maior, já que diversas operações não tiveram os números oficialmente divulgados.
O GCC é composto por Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã — nações que vêm investindo fortemente em outros países por meio de seus fundos soberanos, abastecidos com os lucros da indústria petrolífera. Esses investimentos fazem parte de projetos ambiciosos de transformação econômica, como o plano Visão 2030 da Arábia Saudita, que busca diversificar a economia e reduzir a dependência do petróleo.
Embora os dados do SWFI incluam investimentos desde os anos 2000, foi a partir de 2010 que os negócios com o Brasil se intensificaram. Naquele ano, a Qatar Holding adquiriu uma participação no Santander Brasil por 2,7 bilhões de dólares. Em 2012, o fundo Mubadala, de Abu Dhabi, chegou ao Brasil investindo 2 bilhões de dólares no grupo de Eike Batista. Desde então, os aportes aumentaram significativamente, especialmente nos últimos anos.
Em 2023, os investimentos árabes no país atingiram um pico, ultrapassando 3 bilhões de dólares. A principal operação foi a compra de 10% da divisão de metais básicos da Vale pela Manara Minerals, por 2,5 bilhões de dólares. A Manara é uma joint venture entre a mineradora saudita Ma’aden e o fundo soberano saudita Public Investment Fund (PIF).
Ainda em 2023, o PIF, por meio da Salic, sua subsidiária no setor de alimentos, comprou uma participação de 340 milhões de dólares na BRF, hoje detendo 11,03% da empresa. A Salic também é a maior acionista individual da Minerva, com 30,55% das ações. No mesmo período, o fundo Mubadala aumentou seus investimentos no Brasil, com novos aportes em empresas como a Atvos (biocombustíveis), a Zamp (operadora das redes Burger King, Subway e Popeye’s no Brasil) e a ATG, responsável pelo projeto de uma nova bolsa de valores no Rio de Janeiro.
A Mubadala, considerada o fundo mais ativo na economia brasileira, consolidou sua presença após assumir ativos do grupo EBX. Atualmente, investe em setores diversos como educação, alimentos, energia, logística, esporte, transporte público e petróleo. Em 2021, o fundo adquiriu da Petrobras a Refinaria Landulpho Alves, hoje refinaria de Mataripe, por 1,65 bilhão de dólares.
Segundo Ana Paula Repezza, diretora de Negócios da Apex Brasil, os países árabes enxergam o Brasil como estratégico por seu protagonismo em setores como alimentos, infraestrutura, energia renovável e mineração. Ela aponta que a relevância desses investimentos cresceu visivelmente nos últimos anos.
Thiago Sandim, especialista em fusões e aquisições do escritório Demarest, observa que os fundos árabes costumam aplicar valores expressivos — geralmente acima de 250 milhões de dólares — e isso torna difícil encontrar ativos no Brasil que atendam a esse perfil, especialmente em participações minoritárias.
Diante disso, instituições financeiras brasileiras têm procurado captar recursos diretamente na região. O BTG Pactual e o Patria Investimentos são exemplos de empresas que mantêm contato frequente com os fundos árabes. Em 2023, o Patria e a EB Capital assinaram memorandos de entendimento com o Ministério de Investimentos da Arábia Saudita. O BNDES, por sua vez, firmou acordo com o Saudi Exim Bank para fomentar futuras parcerias.
O estreitamento das relações diplomáticas entre Brasil e países do Golfo também impulsiona os investimentos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus ministros realizaram viagens oficiais à região, acompanhados de empresários, enquanto autoridades árabes também estiveram no Brasil recentemente. Eventos como a COP-28, realizada em Dubai, o G20 no Brasil e a adesão de Arábia Saudita e Emirados ao Brics ampliaram o diálogo entre os países.
Rodrigo Paiva, CEO da Ambipar e representante do grupo Lide em Dubai, afirma que a entrada dos Emirados Árabes no Brics motivou o governo local a reforçar os laços comerciais com os demais países do grupo. “Ao perceber que o país tinha mais negócios com membros do Brics, como China e Índia, os Emirados definiram como prioridade estreitar os laços com o Brasil. E quando o governo impõe o ritmo, o setor privado segue”, explica.
Com esse cenário de expansão, o Brasil surge como uma das apostas mais estratégicas dos países árabes, tanto pela sua oferta de ativos atraentes quanto pelo alinhamento com as metas de diversificação econômica desses fundos. A tendência é de que, nos próximos anos, o volume de aportes cresça ainda mais, consolidando a presença árabe em áreas-chave da economia brasileira.
Com informações do Estadão
Foto: J. F. Diorio

