O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), colocou aliados em alerta nos últimos dias ao sinalizar, de forma mais contundente, sua intenção de deixar o PSDB e se filiar ao PSD, sigla presidida nacionalmente por Gilberto Kassab. As conversas sobre a mudança partidária, que ocorrem desde o ano passado, ganharam tração nas últimas semanas e podem resultar em uma filiação oficial já no início de maio, com data cogitada para o dia 6. O movimento tem sido cuidadosamente costurado nos bastidores, mas a iminência da troca já causou movimentação entre tucanos no estado.
A possibilidade de debater o assunto com sua base mais próxima estava prevista para esta quarta-feira (10), em Porto Alegre, quando Leite havia agendado uma reunião com deputados estaduais e federais do PSDB. O encontro, no entanto, foi cancelado devido a conflitos de agenda, frustrando a expectativa de que ele pudesse anunciar formalmente a data de saída e provocar um reposicionamento em bloco de lideranças tucanas no Rio Grande do Sul.
Mesmo com o adiamento, aliados avaliam que a decisão do governador já está tomada, restando apenas o anúncio oficial. Nos bastidores, é dado como certo que Leite tem mantido articulações constantes com Kassab e que já recebeu sinal verde de lideranças do PSD para sua chegada. A presidente estadual do PSDB gaúcho, Paula Mascarenhas, que também atua como secretária de Relações Institucionais do governo estadual, confirmou a inquietação do governador com a paralisia da legenda em nível nacional. Segundo ela, Leite vinha esperando uma definição clara sobre uma possível federação ou fusão com outras siglas, algo que ainda não avançou.
“O governador tem reiterado que uma decisão será tomada até o fim de abril. Caso o PSDB não se posicione de forma clara, ele poderá fazer seu próprio movimento. Ele tem dialogado com nomes de outras siglas para viabilizar uma frente de centro democrático, mas há um limite de tempo para isso. Ele precisa cumprir um cronograma político”, declarou Paula.
Em publicações nas redes sociais, Eduardo Leite tem adotado tom semelhante, deixando claro que sua permanência no PSDB está condicionada ao desfecho das tratativas internas da legenda: “Em respeito à história que construímos juntos, qualquer decisão sobre meu futuro partidário será tomada apenas após a conclusão desse processo interno, que terá um desfecho até o fim do mês de abril”, escreveu.
Desde novembro do ano passado, Leite tem mantido diálogo direto com Kassab. A aproximação se intensificou após a filiação da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, ex-PSDB, ao PSD. A Lyra, Leite teria confidenciado que poderia seguir o mesmo caminho, atraído pela maior estabilidade da legenda e sua capilaridade nacional. Além de Kassab, o governador também conversou com o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, e com o governador do Paraná, Ratinho Júnior — ambos nomes influentes dentro do PSD.
A movimentação em torno da possível mudança partidária de Leite não passou despercebida por prefeitos e vice-prefeitos tucanos no Rio Grande do Sul, muitos dos quais já sinalizam que seguirão o governador caso ele confirme sua filiação ao PSD. O clima é de espera pela definição do líder estadual. Em entrevista à rádio Cultura, o vice-prefeito de Erechim, Flávio Tirello (PSDB), afirmou que “todo mundo vai acompanhar o governador”, classificando a situação como “muito avançada”.
Tirello destacou que a movimentação tem caráter coletivo e que há um acordo informal entre as lideranças para que o PSDB gaúcho caminhe de forma unificada: “É um movimento coletivo. Todos os nossos líderes devem sair juntos. Nosso presidente municipal até brinca dizendo que vai ficar só para apagar as luzes e fechar a porta. A ideia é que, quando o movimento ocorrer, ocorra de forma organizada.”
Apesar de bem encaminhada, a troca de sigla por parte de Leite esbarra em um ponto central: o futuro presidencial do governador. Em 2021, ele disputou as prévias do PSDB para concorrer à Presidência da República. A mudança para o PSD poderia representar o abandono momentâneo desse projeto, já que Kassab tem manifestado preferência por apoiar nomes como Tarcísio de Freitas (Republicanos), atual governador de São Paulo, ou mesmo lançar Ratinho Júnior como candidato próprio da legenda ao Planalto.
A falta de clareza quanto à estratégia eleitoral do PSD para 2026 é um dos fatores que retardaram a decisão de Leite. No entanto, interlocutores afirmam que o impasse interno do PSDB tem pesado mais. As disputas entre o presidente nacional do partido, Marconi Perillo, e o deputado federal Aécio Neves, por exemplo, criaram um ambiente de estagnação e desmobilização. Para Leite, essa situação é incompatível com suas metas políticas de médio prazo.
Diante disso, cresce a expectativa de que Leite redirecione seu foco para uma candidatura ao Senado Federal em 2026. A hipótese vem sendo considerada especialmente após os recentes episódios de enchentes no estado, nos quais o governador se destacou por sua atuação direta na interlocução com o governo federal e os organismos de apoio emergencial. A exposição positiva pode ser capitalizada eleitoralmente, e uma vaga no Senado seria vista como um passo estratégico em sua trajetória.
Outro fator relevante é sua aproximação com o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). Leite tem feito elogios públicos ao mineiro e, nos bastidores, chegou a ter seu nome mencionado como possível vice em uma futura chapa presidencial encabeçada por Zema. Esse tipo de articulação, segundo aliados, é mais viável a partir de uma base no PSD, cuja estrutura robusta e abrangência nacional oferecem melhores condições para projetos de longo prazo.
A filiação ao PSD é vista como um movimento para consolidar Leite como liderança do campo de centro democrático, posição cada vez mais disputada no cenário político nacional. Com maior tempo de televisão, acesso a recursos do fundo partidário e presença em todo o território nacional, o partido poderia servir como uma plataforma mais eficaz para alavancar futuras campanhas.
Caso Eduardo Leite confirme sua saída do PSDB, o partido ficará com apenas um governador no país: Eduardo Riedel, do Mato Grosso do Sul. No entanto, interlocutores próximos a Riedel já reconhecem que ele também vem sendo sondado por outras legendas, entre elas PSD e PL, e não descartam uma mudança de filiação no futuro, o que aprofundaria ainda mais a crise da legenda tucana em nível nacional.
Foto: Evandro Leal

