O presidente da Rússia, Vladimir Putin, indicou disposição para interromper os combates na Ucrânia ao longo da atual linha de frente, desde que os Estados Unidos reconheçam oficialmente a anexação da Crimeia e aceitem outras exigências geopolíticas. A proposta foi apresentada durante uma reunião em São Petersburgo com Steve Witkoff, emissário do ex-presidente americano Donald Trump, segundo apuração do “Financial Times”.

Trata-se da primeira sinalização formal de recuo por parte da Rússia desde o início da invasão em 2022. A expectativa é de que as negociações avancem até o final de abril. Conforme o “Financial Times”, além do reconhecimento da Crimeia, Putin estaria disposto a flexibilizar o controle sobre as regiões ucranianas de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia, desde que os EUA façam concessões, como barrar a entrada da Ucrânia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

A Casa Branca sugeriu uma solução envolvendo o envio de tropas europeias de paz e de forças militares não vinculadas à Otan para monitorar um possível cessar-fogo em uma linha de mais de mil quilômetros. Essa proposta, no entanto, encontra resistência em Kiev.

Em setembro de 2022, Putin anunciou a anexação das quatro províncias ucranianas, embora a Rússia ainda não tenha controle pleno sobre nenhuma delas. O Kremlin sustenta domínio sobre Donetsk e Luhansk desde 2014, quando iniciou uma intervenção velada utilizando milícias locais.

Dmitry Peskov, porta-voz do governo russo, confirmou que há tratativas em andamento com os americanos, mas ressaltou que se trata de um processo “difícil e demorado”, sem espaço para discussões públicas.

Em artigo no “Nezavisimaya Gazeta”, o editor Konstantin Remchukov, ligado ao Kremlin, afirmou que Moscou pode suspender as ofensivas após recuperar integralmente a região de Kursk, que estaria parcialmente ocupada por tropas ucranianas. “Quando o último meio por cento for libertado, as tropas podem parar onde estiverem”, escreveu.

No dia 17 de abril, representantes da Ucrânia, Estados Unidos e três países europeus reuniram-se em Paris na tentativa de impulsionar negociações de paz. O presidente francês, Emmanuel Macron, classificou o encontro como um “importante momento de convergência” e defendeu uma paz “sólida e duradoura”. Em Moscou, a reunião não foi bem recebida. Peskov acusou os europeus de manterem o foco na continuidade da guerra.

Uma nova rodada de negociações está marcada para esta quarta-feira, em Londres. Embora Witkoff e o secretário de Estado americano Marco Rubio tenham cancelado a participação, o ex-general Keith Kellogg, também enviado por Trump, deverá comparecer. Fontes russas indicam que Witkoff deve visitar Moscou ainda nesta semana.

Em publicação nas redes sociais, Donald Trump afirmou esperar um acordo entre Rússia e Ucrânia “ainda esta semana”. Segundo ele, isso permitiria que ambos os países voltassem a “fazer negócios” com os Estados Unidos, “que estão prosperando”, e aproveitassem para “fazer fortuna”.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, confirmou não ter recebido uma proposta oficial da equipe de Trump, mas afirmou estar aberto ao diálogo. “Há sinais, ideias, discussões, mas não há uma proposta formal. Se houver, responderemos”, declarou.

Apesar da abertura ao diálogo, Zelensky reafirmou que a Crimeia é inegociável. “A Ucrânia não reconhecerá a ocupação da Crimeia. É nosso território, é do povo ucraniano. Não há o que discutir.”

No ano passado, Putin já havia declarado que rejeitaria qualquer acordo de paz sem a retirada das tropas ucranianas das frentes de batalha e o controle total da Rússia sobre as quatro províncias em disputa.

Antes disso, Moscou condicionava a paz a uma série de exigências: a neutralidade da Ucrânia, o fim de suas aspirações de adesão à Otan, o reconhecimento internacional das anexações feitas pela Rússia, o levantamento de sanções impostas por países ocidentais e a redução da presença militar da Otan nos países vizinhos à fronteira russa.

Foto: Kristina Kormilitsyna