O desmatamento no Brasil registrou queda de 32,4% em 2024, conforme dados consolidados do Relatório Anual do Desmatamento (RAD), elaborado pelo MapBiomas e divulgado nesta quarta-feira (14). A retração ocorre em cinco dos seis biomas brasileiros, com exceção da Mata Atlântica, que manteve níveis semelhantes aos de 2023.
No total, o país perdeu 1.242.079 hectares de vegetação nativa, com 60.983 alertas de desmatamento registrados ao longo do ano. A área média desmatada diariamente foi de 3.403 hectares, o que equivale a 141,8 hectares por hora. O dia com maior registro foi 21 de junho, com 3.542 hectares perdidos em 24 horas.
As reduções mais expressivas ocorreram no Pantanal e no Pampa, seguidos pelo Cerrado, Amazônia e Caatinga. Já a Mata Atlântica apresentou leve alta de 2%. Para Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, essa estabilidade se explica pelos impactos de eventos climáticos extremos, que contribuíram para o aumento pontual na perda de vegetação. “Sem essas ocorrências, o desmatamento teria sido 20% menor”, avaliou.
O Cerrado voltou a liderar como o bioma com maior área desmatada no Brasil pelo segundo ano consecutivo, respondendo por mais de 652 mil hectares – mais da metade do total nacional. As formações savânicas concentraram 52,4% da área desmatada, enquanto as formações florestais representaram 43,7%.
Apesar dos avanços, a persistência do desmatamento no Cerrado preocupa. Marcos Rosa, coordenador técnico do MapBiomas, lembra que a inversão entre Amazônia e Cerrado começou em 2023 e se mantém: “Ambos reduziram a perda, mas o Cerrado continua como principal foco”.
A região do Matopiba – formada pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – concentrou 42% da vegetação nativa perdida em 2024. No Cerrado, essa área representou 75% da perda total. Os estados do Maranhão, Pará e Tocantins lideraram os índices nacionais, respondendo juntos por 42,5% do desmatamento no país, com 17,6%, 12,6% e 12,3%, respectivamente.
Por outro lado, estados como Goiás, Paraná e Espírito Santo apresentaram queda superior a 60% na perda de vegetação. Em contrapartida, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Acre registraram aumento. No caso gaúcho, a Mata Atlântica foi o bioma mais afetado, impactado por eventos climáticos extremos ocorridos entre abril e maio. Natália Crusco, da equipe do MapBiomas para a Mata Atlântica, relatou 627 alertas com 2.805 hectares perdidos no período.
De acordo com o relatório, mais da metade dos municípios brasileiros (54%) registraram ao menos um episódio de desmatamento validado. No estado do Piauí, os municípios de Canto do Buriti, Jerumenha, Currais e Sebastião Leal se destacaram com os maiores aumentos proporcionais.
Nas terras indígenas, a redução foi de 24%, com 15.938 hectares desmatados em 2024 – o equivalente a 1,3% do total nacional. Ainda assim, a Terra Indígena Porquinhos dos Canela-Apãnjekra (MA) encabeçou a lista das que mais perderam vegetação, com 6.208 hectares, um aumento de 125% em relação ao ano anterior. Apenas 33% das terras indígenas tiveram registros de desmatamento.
Nas Unidades de Conservação (UCs), a perda totalizou 57.930 hectares, 42,5% a menos do que em 2023. A Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu (PA), na Amazônia, liderou entre as UCs com maior área afetada: 6.413 hectares.
Um dos destaques do relatório foi o monitoramento sobre desmatamento autorizado. Em 2024, 43% da área desmatada no Brasil teve algum tipo de autorização oficial. O Cerrado liderou nesse aspecto, com 66% da supressão de vegetação ocorrendo sob permissão legal. Na Amazônia, esse percentual foi de apenas 14%.
Entretanto, a transparência sobre essas autorizações ainda é limitada em alguns estados. O Maranhão, por exemplo, apesar de liderar em área desmatada, apresentou os piores índices de transparência. Marcondes Coelho, pesquisador do Instituto Centro de Vida (ICV), relatou dificuldades para obter dados completos. “Recebemos duas bases, mas com restrições que inviabilizaram o uso. O estado segue sem fornecer informações adequadas”, lamentou.
O Relatório Anual do Desmatamento também apresenta um panorama da série histórica iniciada em 2019. Nos últimos seis anos, o Brasil perdeu 9.880.551 hectares de vegetação nativa, sendo 67% concentrados na Amazônia Legal. O principal vetor de desmatamento no país segue sendo a agropecuária, responsável por mais de 97% da destruição da vegetação nativa desde 2019.
Na avaliação dos pesquisadores do MapBiomas, a queda em 2024 reflete um conjunto de medidas implementadas recentemente. Entre elas, destacam-se os planos de enfrentamento ao desmatamento elaborados para todos os biomas, o aumento da participação dos estados em ações de fiscalização, e o uso de dados ambientais na concessão de crédito rural.
“A descentralização das ações de fiscalização, com maior engajamento dos estados, tem sido fundamental. Hoje, embargos e autuações feitos pelo Ibama têm eco nas administrações estaduais, o que amplia o alcance das medidas”, explica Tasso Azevedo.
Ele também destaca que bancos e agentes de crédito têm utilizado cada vez mais os dados de desmatamento na análise de risco socioambiental. “Essa vinculação com o crédito rural tem contribuído para desestimular práticas ilegais”, afirma.
Apesar dos avanços, o relatório alerta que o desmatamento ainda está em níveis elevados e que o monitoramento precisa ser contínuo e rigoroso. Os pesquisadores do MapBiomas apontam que o uso de tecnologias de rastreamento e a integração de dados públicos são caminhos promissores para o controle efetivo das perdas ambientais.
Com esse novo panorama, o RAD 2024 se consolida como uma importante ferramenta para subsidiar políticas públicas e promover maior transparência na gestão ambiental do país. O relatório também reforça a necessidade de aprimorar mecanismos de controle e responsabilização, especialmente em estados com histórico de baixa transparência e altos índices de desmatamento.
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

