A menos de dois meses das eleições internas, o Partido dos Trabalhadores (PT) enfrenta divisões expressivas em ao menos 18 estados. As disputas regionais pela presidência dos diretórios estaduais ocorrem paralelamente à consolidação do ex-prefeito de Araraquara (SP), Edinho Silva, como favorito para assumir a direção nacional da sigla. As brigas internas, porém, já funcionam como prévias da montagem de palanques para as eleições de 2026, especialmente para as candidaturas ao Senado e aos governos estaduais.

Com o prazo de inscrição encerrado para o Processo de Eleição Direta (PED), o cenário é de racha consolidado em diversas regiões. As disputas estaduais reúnem de dois a sete postulantes ao comando partidário. O cientista político Paulo Baía, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), resume: “Quem controla essa máquina, controla a política no estado. O cargo é disputado porque significa poder e influência na definição de candidaturas”.

No Paraná, a briga opõe o deputado estadual Arilson Chiorato, aliado da ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e o deputado federal Zeca Dirceu. Chiorato tenta se manter na presidência estadual, o que facilitaria uma candidatura futura de Gleisi ao Senado. Dirceu, por sua vez, almeja presidir o diretório e também quer se lançar ao Senado. “Tem zero chance de composição, apesar de que eu aceitaria abrir mão caso houvesse um terceiro nome na CNB. Mas Arilson não topa. Não pode ficar como está. O resultado de 2024 foi horrível, faltou presidente”, declarou Zeca Dirceu, referindo-se à corrente interna majoritária do PT.

No Ceará, a disputa reproduz o embate ocorrido nas eleições municipais de Fortaleza, quando a deputada federal Luizianne Lins foi preterida em favor de Evandro Leitão, atual prefeito. Agora, com apoio do governador Elmano de Freitas e do deputado José Guimarães, Leitão articula a permanência de Antônio Filho no comando do diretório estadual. Luizianne, em contraposição, lançou a vereadora Adriana Almeida. O impasse antecipa a disputa por uma possível candidatura ao Senado entre Luizianne e Guimarães.

Na Bahia, o conflito envolve figuras do primeiro escalão do governo federal. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, apoia Jonas Paulo, enquanto o senador Jaques Wagner está ao lado de Tássio Brito, atual secretário de Finanças do PT baiano. Wagner busca a reeleição em 2026, mas Rui Costa também é cotado para a disputa. Parte da base do governador Jerônimo Rodrigues defende uma chapa puro-sangue do PT, mas essa possibilidade é considerada improvável, o que pode levar à exclusão de Wagner da corrida.

Em Pernambuco, houve uma tentativa de união entre os grupos dos senadores Humberto Costa e Teresa Leitão, mas as negociações não prosperaram. Teresa lançou o ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Messias Melo, como candidato. A eleição dele sinalizaria um alinhamento do PT ao prefeito do Recife, João Campos (PSB), enquanto Humberto Costa, aliado da governadora Raquel Lyra (PSD), indicou dois nomes: o secretário-geral Sérgio Goiana e a prefeita de Serra Talhada, Márcia Conrado. A eleição definirá se o partido reforçará os laços com Campos ou com a gestão estadual.

Em Mato Grosso do Sul, o debate gira em torno da manutenção do apoio ao governador tucano Eduardo Riedel. O deputado federal Vander Loubet, defensor da aliança, disputa com Humberto Amaducci, que é contrário à aproximação com o PSDB. A possível ruptura ganhou força após manifestações de Riedel favoráveis à anistia dos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro.

No Rio de Janeiro, o vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, atual prefeito de Maricá, lançou seu filho, Diego Zeidan, à presidência estadual do partido. Quaquá defende que o PT reivindique uma vaga de vice na chapa de reeleição do prefeito Eduardo Paes (PSD), que tem demonstrado insatisfação com os petistas por conta da falta de apoio em votações na Câmara Municipal. Para enfrentar Quaquá, aliados dos deputados Benedita da Silva e Lindbergh Farias apoiam o deputado Reimont. Com discurso moderado, ele declarou: “Não vamos antecipar onde estaremos. Se formos de Paes, queremos discutir programa, segurança pública”.

Em São Paulo, a principal disputa ocorre entre os deputados Kiko Celeguim, federal, e Antônio Donato, estadual. Ambos têm forte atuação partidária e contam com respaldo de diferentes correntes internas. A definição do comando estadual paulista, o mais influente do país, terá peso estratégico não apenas para as eleições estaduais, mas também para as alianças presidenciais que o PT pretende costurar em 2026.

O cenário revela que, apesar do discurso de unidade nacional, o PT está longe de um consenso interno nos estados. As eleições partidárias, marcadas para julho, serão determinantes para definir os rumos das alianças locais, a distribuição das candidaturas e o próprio perfil que o partido adotará nas eleições gerais de 2026. As disputas revelam também os conflitos entre pragmatismo eleitoral e identidade partidária, que se manifestam nas escolhas de aliados, nas possíveis composições e no grau de autonomia dos diretórios estaduais diante da direção nacional.

 

 

Foto: Gabriel Paiva