As tecnologias digitais tornaram-se uma ferramenta poderosa nas mãos de mulheres palestinas e suas descendentes que vivem no Brasil. Esse é o tema central da tese de doutorado que venceu, em 2025, o Prêmio Compós de Teses e Dissertações Eduardo Peñuela, promovido pela Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós). A pesquisa destaca como, por meio da internet, essas mulheres enfrentam tanto o genocídio promovido por Israel contra o povo palestino quanto os estereótipos e a xenofobia que sofrem no cotidiano.
Dentistas, comerciantes, psicólogas, estudantes e mulheres de diversas profissões têm usado as redes sociais como um espaço para romper barreiras, desafiando censuras e limitações impostas pelas próprias plataformas digitais. Por meio de postagens, elas desconstroem a imagem de submissão frequentemente atribuída às mulheres árabes e palestinas, buscando sensibilizar o público brasileiro e conquistar apoio à causa palestina, especialmente no contexto da grave crise humanitária vivida na Faixa de Gaza desde 2023.
Os bombardeios israelenses sobre Gaza, iniciados após os ataques do grupo Hamas a vilarejos israelenses, resultaram na morte de mais de 56 mil pessoas, além de cerca de 100 mil feridos. Hospitais, escolas e infraestruturas essenciais foram destruídos, agravando o sofrimento da população local. A crise, que inclui bloqueios à entrada de alimentos e medicamentos, foi classificada como genocídio por órgãos da ONU, entidades de direitos humanos e por países como o Brasil.
A tese de doutorado A trama tecida por mulheres palestinas: relatos biográficos dos usos táticos de tecnologias digitais foi desenvolvida pela pesquisadora Simone Munir Dahleh, que também é descendente de palestinos e vive no Brasil. Através de relatos biográficos, Simone revelou como as mulheres palestinas utilizam a internet de maneira estratégica para manter vivas suas narrativas, resistir ao apagamento cultural e afirmar suas identidades.
Uma dessas mulheres é Hanan, de 44 anos, empresária descendente de palestinos, que utiliza suas redes sociais para compartilhar vídeos traduzidos para o português sobre a situação na Palestina. Embora seu conteúdo seja majoritariamente voltado à divulgação de valores islâmicos, ela sente que precisa abordar também as atrocidades cometidas em Gaza. “Eu não gosto de ficar jogando esse foco específico na minha página porque as imagens e o conteúdo são muito fortes, mas eu não posso deixar de postar, porque é uma causa que tem que ser postada”, relatou Hanan à pesquisadora.
O medo da censura é uma constante entre essas mulheres. Algumas relataram dificuldades para manter seus perfis ativos e temem ser monitoradas ou ter a entrada proibida na Palestina e em outros países, como os Estados Unidos. Também há receio de serem injustamente rotuladas como antissemitas. Maysar, dentista, imigrante e produtora de conteúdo, revelou que seu alcance nas redes sociais caiu drasticamente nos últimos anos. “Como palestina e refugiada, tentamos, de todas as formas, por todos os meios de comunicação, levar a verdadeira história, mas está sendo difícil, realmente, porque a gente está sendo bloqueada \[nas plataformas digitais]. O alcance, o engajamento, por exemplo, se antes era de 300 pessoas, agora não chega a 20″, desabafou.
Maysar chegou ao Brasil ainda criança e, aos 62 anos, permanece firme na luta pela causa palestina, especialmente no campo digital. Para ela, a internet é um espaço essencial para dar visibilidade às vozes palestinas e combater o silenciamento promovido pelas mídias tradicionais. De acordo com Simone, a cobertura internacional do conflito ainda é marcada por estereótipos que reforçam uma visão distorcida dos palestinos, o que torna a atuação das mulheres nas redes uma “ação tática” de resistência.
Além da denúncia, essas mulheres usam as redes para fortalecer laços familiares e culturais. Elas mantêm contato com parentes na Palestina, ouvem rádios locais, compartilham músicas, orações e objetos trazidos de suas cidades de origem. Uma dessas histórias é a de Sabah, imigrante de 43 anos, que compartilha repetidamente um vídeo da sobrinha usando um vestido típico palestino enquanto explica a receita de um prato tradicional. “Esse momento incrível \[é] da minha sobrinha linda, usando um vestido palestino, explicando para os colegas dela a receita de um prato típico palestino. Eu amo esse vídeo. Eu assisto quase todos os dias”, contou Sabah nas redes.
Ao compartilhar essas memórias, elas também se opõem à imagem da mulher palestina como passiva ou submissa. As entrevistadas evocam referências femininas de força e luta, como a jornalista Shireen Abu Akleh, assassinada por soldados israelenses em 2022 enquanto fazia uma cobertura ao vivo para a rede Al Jazeera. Mesmo vestindo capacete e colete identificando “imprensa”, Shireen foi baleada e sua morte causou comoção internacional. Israel alegou que o disparo foi “acidental”.
Outros nomes lembrados pelas entrevistadas incluem Hanan Ashrawi, intelectual e política palestina de destaque, a jovem ativista palestino-brasileira Hyatt Omar e a militante Leila Khaled, conhecida por sua atuação na resistência armada. Essas referências femininas servem como inspiração para romper o estereótipo de fragilidade e passividade frequentemente atribuído às mulheres árabes.
A tese também resgata a memória da Palestina viva, anterior aos bombardeios. Simone reuniu relatos e imagens que retratam aspectos cotidianos, como a colheita de azeitonas, os muros brancos das casas em Rafah e pratos típicos como o Maftoul, um cuscuz palestino. A pesquisadora afirma que, mais do que reivindicar o reconhecimento da Palestina como Estado, seu objetivo foi mostrar a riqueza cultural e humana desse povo. “Mostrar a riqueza deste povo, ouvir e difundir o relato de mulheres descendentes e imigrantes palestinas é um modo de desmistificar a imagem que se tem deste grupo, como atrasadas, oprimidas e que não trabalham”, explicou Simone logo na introdução da pesquisa.
Segundo ela, reafirmar a identidade palestina é essencial, mesmo para quem já é descendente e nasceu longe da Palestina. “O colonialismo e a desapropriação das terras palestinas ressaltam a necessidade de as interlocutoras reafirmarem uma identidade nacional palestina, mesmo sendo descendentes”, afirmou. Simone sabe disso por experiência própria: ela retornou ao Brasil aos 9 anos, deportada de Israel junto com a mãe e o irmão pequeno.
A luta dessas mulheres vai além de contestar o genocídio. Elas se dedicam também a descontruir as associações entre palestinos e terrorismo, além de questionar os padrões que as vinculam exclusivamente ao papel de vítimas ou figuras submissas. “Pelas brechas, essas mulheres buscam desmistificar o papel de submissão atribuído às palestinas, minar as representações que associam o terrorismo aos palestinos e discutir a ocupação”, concluiu Simone.
De acordo com dados da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), em 2020, havia aproximadamente 200 mil brasileiros-palestinos no país, com significativa concentração no Rio Grande do Sul. A pesquisa de Simone ilumina, portanto, um recorte importante sobre a atuação dessas mulheres na construção de novas narrativas e no fortalecimento da memória e da resistência palestina no Brasil.
Foto: Robson Souza dos Santos/Divulgação

