O ex-secretário de Comunicação do governo Jair Bolsonaro (PL), Fábio Wajngarten, declarou à Polícia Federal (PF) nesta terça-feira, 1º de julho, que não manteve contato com familiares do tenente-coronel Mauro Cid após agosto de 2023. “Wajngarten afirmou que nunca tentou atrapalhar as investigações da trama golpista ou obter informações sobre a delação premiada de Cid.”
Em seu depoimento, Wajngarten disse que foi procurado pelo pai de Mauro Cid na mesma época em que o militar fechou acordo de colaboração com a Justiça, mas que o contato foi exclusivamente para auxiliar na inscrição da neta do general em uma competição de hipismo em São Paulo. “O ex-secretário relatou que o pedido se limitava ao evento esportivo, sem qualquer relação com investigações.”
“Fui procurado pelo general Lorena Cid para inscrever a neta em uma competição de hipismo em agosto de 2023. Eu liguei para o advogado Paulo Bueno, que providenciou a inscrição de Giovana, a filha mais velha. Por coincidência, ela venceu o campeonato na Sociedade Hípica Paulista. Esse foi o único contato. Se houve outras ligações, não me recordo”, declarou Wajngarten.
Ele negou ter mantido qualquer contato posterior com familiares de Cid, apesar da relação amistosa que mantinha com o militar, que era responsável por informá-lo durante as crises de imprensa no fim do governo Bolsonaro. “Wajngarten reforçou que jamais tentou desorganizar ou prejudicar qualquer investigação.”
“Em nenhum momento houve tentativa de obstruir ou tumultuar qualquer apuração. Estou avaliando entrar com ação por denunciação caluniosa contra quem tenta intimidar a defesa do presidente”, disse.
O ex-secretário afirmou que não sabe precisar se esse contato ocorreu antes ou depois de Mauro Cid decidir colaborar com a Justiça. “Segundo Wajngarten, a cronologia é confusa e não se lembra da ordem exata dos fatos.”
Além de Wajngarten, a PF ouviu nesta terça-feira o advogado de Jair Bolsonaro, Paulo Amador da Cunha Bueno, e Eduardo Kuntz, defensor do coronel Marcelo Câmara. “As oitivas foram simultâneas, mas realizadas em salas separadas, e apuram suspeitas de obstrução de Justiça no caso da trama golpista.”
Bueno permaneceu na superintendência da PF por cerca de 40 minutos. Wajngarten prestou depoimento por mais de duas horas. Kuntz seguia no local até o final da tarde.
Kuntz informou ao Supremo Tribunal Federal (STF), no último dia 17, que conversou com Mauro Cid pelo Instagram sobre o conteúdo da delação premiada, o que violaria o sigilo do acordo. “Ele anexou um print de uma conversa em que Cid, supostamente logado em um perfil falso, aparece fazendo sinal de positivo com a mão enquanto segura o celular.”
Antes que Kuntz entregasse essas informações ao STF, o advogado Celso Vilardi, que integra a defesa de Bolsonaro, perguntou a Mauro Cid, durante interrogatório no Supremo em 9 de junho, se ele havia conversado com alguém pelo Instagram sobre os detalhes de sua colaboração. “Cid negou ter mantido esse tipo de conversa.”
Vilardi também perguntou se ele conhecia o perfil “GabrielaR702”. Cid respondeu que Gabriela era o nome de sua esposa, mas não confirmou se o perfil pertencia a ela. “Poucos dias depois, a revista Veja publicou mensagens atribuídas a esse perfil, relacionadas à delação de Cid.”
Os advogados de Bolsonaro e do coronel Câmara pretendem invalidar a delação de Mauro Cid e todas as provas dela derivadas, o que poderia desmontar as principais bases da acusação da Procuradoria-Geral da República (PGR).
A defesa de Cid informou ao STF que ele não foi o autor da conversa atribuída ao perfil “GabrielaR702” e solicitou a apuração da titularidade da conta. “O ministro Alexandre de Moraes autorizou a quebra de sigilo e determinou que a empresa Meta enviasse os dados relacionados ao perfil investigado.”
Os registros enviados pela Meta indicam que houve troca de mensagens entre Kuntz, o perfil “GabrielaR702” e Paulo Bueno. “Essas informações fortaleceram a suspeita de tentativa de interferência na delação.”
A PF também investiga se Wajngarten e Kuntz tentaram contatar Mauro Cid por meio de sua filha menor de idade e se Wajngarten teria procurado a esposa do militar. “A defesa de Cid também relatou que Kuntz e Bueno teriam abordado a mãe do tenente-coronel durante eventos em São Paulo.”
“Cercaram-na com o objetivo de tentar convencer a família a trocar a defesa de Mauro Cid”, relataram os advogados ao ministro Moraes.
Wajngarten rebateu publicamente as acusações, afirmando que o ministro estaria “criminalizando a advocacia” como forma de “ocultar a evidente falta de voluntariedade e, portanto, a nulidade da colaboração” de Mauro Cid no processo. “O ex-secretário acusa o Supremo de utilizar o caso para constranger a defesa.”
O processo avança com rapidez no STF. Moraes já abriu prazo de 45 dias para a apresentação das alegações finais. “A previsão é que o julgamento de Jair Bolsonaro, acusado de integrar o núcleo central da trama golpista, ocorra entre o fim de agosto e o início de setembro.”
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

