O resultado da inflação oficial de junho, divulgado nesta quinta-feira (10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), confirma que o Brasil ultrapassou o teto da meta de inflação estabelecida pelo novo modelo contínuo adotado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Essa é a primeira vez que o país desrespeita os limites do novo regime, que entrou em vigor em 2024.
Com a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) marcando 0,24% no mês, o acumulado em 12 meses chegou a 5,35%. Como esse patamar supera o limite máximo de 4,5% estipulado pela meta – de 3% com tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo – e se mantém elevado há seis meses consecutivos, configura-se o rompimento do novo padrão de controle inflacionário.
O grupo de alimentos e bebidas teve o maior impacto no resultado de junho, com alta acumulada de 6,66% em 12 meses. Segundo a metodologia do IBGE, esse grupo contribuiu significativamente para a persistência da inflação em patamares acima da meta.
Antes da adoção da meta contínua, o regime de metas no Brasil considerava apenas o acumulado anual encerrado em dezembro. Estourar a meta só acontecia se o IPCA fechasse o ano fora dos limites. No entanto, a resolução do CMN de 2023 instituiu a verificação contínua, válida a partir de 2025, alinhando o Brasil a práticas internacionais e permitindo maior reatividade a oscilações inflacionárias ao longo do tempo.
Essa nova sistemática permite que o Banco Central (BC) avalie o cumprimento da meta mês a mês, e não apenas ao fim do ano. O órgão responsável por perseguir a meta é o Comitê de Política Monetária (Copom), que define a taxa básica de juros da economia, a Selic, atualmente fixada em 15% ao ano – o maior patamar desde o início do atual ciclo de alta, iniciado em setembro de 2024.
Segundo o BC, a meta contínua evita caracterizar como descumprimento situações pontuais, como choques temporários de oferta, variações nos preços de commodities ou combustíveis. No entanto, ao ultrapassar o limite superior da meta por seis meses seguidos, como ocorreu agora, a regra exige que o presidente do BC envie uma carta aberta ao ministro da Fazenda, que preside o CMN, explicando as razões para o descumprimento, as medidas adotadas e o prazo esperado para o retorno da inflação aos limites permitidos.
O histórico de estouro da meta de inflação inclui agora nove ocorrências. Antes da adoção do modelo contínuo, o país havia ultrapassado o limite em 2001, 2002, 2003, 2015, 2017, 2021, 2022 e 2024. A única vez em que a inflação ficou abaixo do piso foi em 2017, quando o IPCA encerrou o ano em 2,95%, com piso de 3%.
O maior estouro aconteceu em 2002, com inflação de 12,53% frente a um teto de 5,5%. Outro pico importante foi registrado em 2021, com o IPCA alcançando 10,06% em meio aos efeitos econômicos da pandemia de Covid-19.
O Banco Central define o regime de metas de inflação como um mecanismo para assegurar a estabilidade de preços no país. “A meta confere maior segurança sobre os rumos da política monetária, mostrando para a sociedade, de forma transparente, o compromisso do BC com a estabilidade de preços”, afirma o órgão em seu site oficial.
A previsibilidade trazida por metas claras, segundo o BC, beneficia o planejamento de famílias, empresas e o próprio governo. Embora o objetivo seja conter pressões inflacionárias, a meta também atua contra inflações muito baixas ou até deflações, que também prejudicam o funcionamento saudável da economia ao postergar consumo e investimento, com efeitos negativos sobre o crescimento e o emprego.
A principal ferramenta do BC para controlar a inflação é a Selic. A elevação da taxa básica encarece o crédito para consumidores e empresas, reduzindo o consumo e, por consequência, a pressão sobre os preços. No entanto, juros elevados também inibem investimentos e podem frear a geração de empregos e renda, o que leva o Copom a dosar com cautela cada movimento.
As reuniões do Copom acontecem a cada 45 dias, quando o comitê avalia o cenário macroeconômico e decide a taxa de juros. Desde que assumiu a presidência do BC, Gabriel Galípolo vem sinalizando que a Selic deverá permanecer em níveis elevados por um período prolongado, até que a inflação retorne de forma consistente ao centro da meta.
O novo regime de apuração contínua impõe maior vigilância ao comportamento da inflação e torna mais imediatas as respostas institucionais aos desvios. A carta que o BC agora deve redigir ao ministro Fernando Haddad será mais uma etapa formal para explicar o descumprimento e reafirmar o compromisso da autoridade monetária com a estabilidade de preços.
A expectativa do mercado é de que, com as medidas já em curso e a manutenção de juros em patamar elevado, a inflação volte gradualmente aos limites da meta. Ainda assim, o desafio de compatibilizar controle inflacionário com estímulo à atividade econômica e ao emprego continua a exigir equilíbrio e comunicação eficaz por parte das autoridades monetárias.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

