Hugo Motta (Republicanos-PB) encerra o primeiro semestre como presidente da Câmara dos Deputados acumulando atritos com diferentes setores da política nacional. Parlamentares da base governista e da oposição bolsonarista, além de integrantes do próprio governo Lula (PT), têm questionado sua condução à frente da Casa e a confiabilidade dos acordos costurados por ele. Soma-se a isso a existência de denúncias sobre a existência de funcionários fantasmas ligados ao seu gabinete.
Ele assumiu o cargo com apoio articulado por diversos partidos, do PT ao PL, mas sem apresentar uma pauta clara para sua gestão. Diante das críticas pela ausência de agenda propositiva, buscou imprimir uma marca ao criar um grupo de trabalho encarregado de elaborar uma proposta de reforma administrativa.
O maior revés de Motta até agora ocorreu em 16 de julho, quando o presidente Lula vetou o projeto de lei que previa o aumento do número de deputados federais de 513 para 531 — proposta defendida por Motta para evitar que a Paraíba, seu estado, perdesse representação. Pessoas próximas afirmam que ele se mostrou contrariado com o veto, que foi interpretado como resposta à decisão da Câmara de derrubar o decreto do governo sobre o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), em junho. O Palácio do Planalto não comunicou previamente o veto à cúpula do Congresso. Lula decidiu sozinho e, quando a decisão foi tornada pública, Motta soube pela imprensa.
Na tarde do mesmo dia, Motta telefonou para a ministra Gleisi Hoffmann (Secretaria de Relações Institucionais) em busca de esclarecimentos. Sem obter resposta oficial, deixou o plenário e foi ao Senado conversar com Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Além do veto, trataram da decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que validou o decreto presidencial sobre o IOF. O encontro gerou críticas até de aliados do presidente da Câmara, que apontaram erro político por não ter consultado os líderes da Casa antes de se dirigir ao Senado, o que demonstraria fragilidade na liderança.
Ao retornar à Câmara, Motta reagiu pautando um projeto que cria linha de crédito subsidiado ao agronegócio com recursos do pré-sal, com impacto fiscal estimado em R\$ 30 bilhões. O governo federal criticou a iniciativa, alegando quebra de acordo, pois negociava alternativas menos onerosas. Aliados próximos também consideraram a medida precipitada e incompatível com a imagem de responsabilidade fiscal que Motta vinha tentando construir.
Apesar dos desgastes, seus aliados sustentam que as votações expressivas em plenário evidenciam apoio político. Argumentam que, mesmo diante de pressões, Motta manteve firmeza em temas como o projeto da anistia — ainda sem avanço concreto na Câmara — o que tem provocado insatisfação entre os parlamentares bolsonaristas, que cobram uma resposta para os condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
A relação com o presidente Lula, que começou com gestos de aproximação e convites para agendas oficiais, deteriorou-se com o tempo. O apoio do PT foi fundamental para consolidar a eleição de Motta, costurada por Arthur Lira (PP-AL), seu antecessor. Hoje, integrantes do governo reclamam do não cumprimento de acordos, como a entrega da relatoria da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026 ao PT, além de mudanças de posição sobre alternativas ao aumento do IOF. Motta nega ter se comprometido com esses pontos.
Há, ainda, apreensão no Planalto sobre um eventual rompimento de outro acordo: a indicação de um nome petista para ocupar vaga no Tribunal de Contas da União (TCU). Em contrapartida, o Executivo celebra a retomada da tramitação de medidas provisórias, paralisadas durante a gestão de Lira por impasses com o Senado.
Motta também tem apoiado pautas de interesse do governo, como o projeto que autoriza empréstimo consignado na iniciativa privada e a proposta de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R\$ 5 mil — ambas ainda em fase de comissão. Outro exemplo é a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública.
Parte do avanço dessas pautas ocorreu após o Palácio do Planalto reforçar a defesa da justiça tributária nas redes sociais, o que levou aliados de Motta a criticarem a estratégia petista, que incluiu memes e vídeos contra o presidente da Câmara. Após reclamar formalmente ao governo, Motta recuou e passou a dar andamento às matérias do Executivo.
Na oposição, os questionamentos persistem. Parlamentares afirmam que Motta sinaliza apoio nos bastidores à anistia, mas evita levar o texto ao plenário. Também o acusam de quebrar acordos ao pautar projetos inesperadamente, o que resultou em protestos e discussões durante sessões da Câmara.
Outro foco de crítica diz respeito à postura do presidente da Casa diante do que a oposição classifica como interferência do Judiciário no Legislativo. Para esse grupo, faltou firmeza em defesa das prerrogativas parlamentares. Motta, por sua vez, argumenta que pautou o recurso para suspender o processo contra o deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), demonstrando seu compromisso com a proteção institucional da Câmara.
Com disputas em diversas frentes e críticas que partem tanto do governo quanto da oposição, Hugo Motta chega ao fim do primeiro semestre como presidente da Câmara em meio a uma tempestade política que testa sua capacidade de articulação e liderança. A depender da condução dos próximos meses, poderá consolidar ou fragilizar ainda mais sua posição no comando da Casa.
Foto: Marina Ramos / Câmara dos Deputados

