O presidente Luiz Inácio Lula da Silva articula um amplo pacote de programas sociais para ser lançado no segundo semestre, mirando a população de baixa renda e setores da classe média, com foco nas eleições de 2026. A estratégia inclui a reformulação do vale-gás, linhas de crédito para reforma de moradias e financiamento para motociclistas e motoristas de aplicativos. O objetivo do Planalto é consolidar a base popular e recuperar apoio entre os eleitores considerados voláteis, especialmente os da classe média urbana.

A iniciativa mais adiantada é o programa *Gás para Todos*, que substituirá o atual Auxílio Gás e deve beneficiar 16,6 milhões de famílias, frente aos 5,4 milhões atendidos atualmente. O novo modelo prevê um cartão exclusivo para retirada de botijões, com custo estimado de R$ 2,6 bilhões em 2025 e R$ 5 bilhões em 2026. A Medida Provisória que formaliza o programa será apresentada em agosto, durante viagem presidencial.

Lula tem intensificado viagens às quintas e sextas-feiras para inaugurar obras e apresentar ações de governo. A orientação do Planalto é que cada ministério informe previamente os lançamentos para avaliar a presença de Lula. A fase atual exige, segundo assessores, um “modo urgência” que amplie a visibilidade de realizações práticas, especialmente diante da pressão enfrentada por áreas como Saúde e Educação.

Com tom mais eleitoral, Lula passou a criticar com mais ênfase o ex-presidente Jair Bolsonaro, buscando marcar diferenças em áreas como justiça tributária e proteção social. Segundo levantamento da Quaest, divulgado neste mês, o presidente melhorou sua avaliação junto à classe média: entre eleitores com renda de dois a cinco salários mínimos, a aprovação passou de 39% em junho para 43% em julho. Ainda assim, a desaprovação segue alta, em 52%.

A nova ofensiva também mira grupos tradicionalmente mais distantes do lulismo, como os motoristas de aplicativos e entregadores, parcela vista como próxima de Bolsonaro. O governo pretende lançar, em agosto, um programa de financiamento para aquisição de veículos por esses trabalhadores. A proposta integra o programa “Acredita”, que conta com um fundo de até R$ 10 bilhões para micro e pequenos empreendedores. A formatação está sob análise da Casa Civil.

Segundo o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, muitos desses trabalhadores estão inscritos no Cadastro Único e no Bolsa Família, mas enfrentam dificuldades para aumentar a renda devido a gastos com aluguel de motos e equipamentos. O governo quer, com o financiamento, garantir mais autonomia e estabilidade financeira a esse público.

Outro eixo da estratégia atinge a classe média, por meio de um programa de reformas habitacionais em estudo pelo Ministério das Cidades. A proposta inclui duas linhas de crédito: uma de até R$ 5 mil para pequenas intervenções e outra de até R$ 30 mil para reformas estruturais. No entanto, o governo ainda busca fontes orçamentárias para viabilizar a medida.

Entre os programas já em execução, o” gora Tem Especialistas”, do Ministério da Saúde, é destaque. A iniciativa utiliza clínicas privadas para acelerar exames e cirurgias no SUS, como forma de reduzir filas e aumentar a eficiência dos atendimentos. Embora o impacto eleitoral dessas ações seja incerto, o Planalto aposta em sua capacidade de gerar efeito prático e simbólico.

O cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, alerta para a exigência crescente do eleitorado. Segundo ele, “os programas sociais deixaram de ser vistos como favor do governo” e passaram a ser compreendidos como um direito garantido. “O medo de perder os benefícios em caso de mudança de governo diminuiu”, afirma.

Ainda assim, Lula aposta na visibilidade desses programas como instrumentos de fortalecimento político. Com a atenção voltada à periferia e à classe média, o governo quer redesenhar sua base social para enfrentar uma disputa que se anuncia acirrada em 2026. A combinação entre discurso de justiça social e medidas concretas de alívio econômico deve nortear a atuação do presidente nos próximos meses.

Principais medidas do pacote:

“Gás para Todos”, – Novo programa de substituição ao Auxílio Gás. Terá cartão próprio e beneficiará 16,6 milhões de famílias, com ajuda financeira para compra de botijões de 13 kg.

“Crédito para motoristas de app” – Financiamento para aquisição de veículos por entregadores e motoristas de aplicativos, integrado ao programa “Acredita”, com fundo de R$ 10 bilhões.

“Reformas habitacionais”, – Programa em elaboração prevê linhas de crédito de até R$ 5 mil para pequenas obras e até R$ 30 mil para reformas maiores, voltado à classe média.

Foto: Ricardo Stuckert

 

 


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