O debate sobre o uso de redes sociais por crianças e adolescentes e a circulação de conteúdos que exploram sua imagem ganhou força após denúncias do influenciador Felca Bress. Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, é essencial estabelecer regras claras para as plataformas, visando combater a exploração infantojuvenil online. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que enviará ao Congresso Nacional, nesta quarta-feira (13), uma proposta para regulamentar as redes sociais.
Segundo os especialistas, as plataformas incentivam a exposição de aspectos da vida pessoal para gerar lucro, sem assumir responsabilidade por riscos ou crimes cometidos. Para o psicólogo Rodrigo Nejm, do Instituto Alana, é fundamental impor limites comerciais. “Explorar a infância adultizada, sexualizada e exposta sem cuidado não é aceitável como modelo de negócio”, afirmou, acrescentando que “não podemos permitir usar a criança como produto comercial”.
Felca expôs perfis com milhões de seguidores que publicam imagens de menores de 18 anos com pouca roupa, em danças sensuais ou abordando temas sexuais. Nejm alerta que, ao impulsionar esse conteúdo, as plataformas ampliam seu alcance e estimulam ganhos financeiros, levando famílias e crianças a buscarem mais visibilidade. “Quanto mais erotizado ou chocante o conteúdo, mais atração e lucro gera para quem o divulga e para as empresas”, observou.
Débora Salles, coordenadora-geral de pesquisa do Netlab da UFRJ, reforça que a regulação protegeria não só menores, mas toda a sociedade. “As plataformas têm capacidade técnica para moderar, mas como não são obrigadas, pouco fazem”, disse.
Na terça-feira (12), a Câmara dos Deputados decidiu criar um grupo de trabalho com prazo de 30 dias para apresentar um projeto que combata a adultização online. Uma das bases é o PL 2.628/2022, que prevê que empresas evitem conteúdos erotizando crianças e estabelece multas de até 10% do faturamento. Nejm defende sua aprovação, lembrando que o Estatuto da Criança e do Adolescente já proíbe a exploração comercial da imagem de menores. A Sociedade Brasileira de Pediatria também pediu urgência.
Pesquisa do Cetic.br aponta que 93% dos jovens entre 9 e 17 anos usam internet — cerca de 24,5 milhões de pessoas — e 83% têm perfil próprio em redes sociais. Trinta por cento relataram contato com desconhecidos online.
A adultização expõe precocemente crianças a padrões e responsabilidades adultas, prejudicando seu desenvolvimento psicológico e físico, além de aumentar o risco de crimes. O psicólogo Tiago Giacometti explica que a interpretação de mundo se forma desde cedo e que a superexposição pode afetar relações e qualidade de vida.
Débora alerta que redes sociais não são ambientes seguros, pois até conteúdos domésticos podem ser usados por criminosos. Ela e outros especialistas recomendam supervisão constante dos pais. “Assim como não deixamos uma criança sozinha numa praça, também precisamos acompanhar o que ela faz nas redes”, concluiu.
Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

