Em um momento de tensões comerciais provocadas pela imposição de tarifas dos Estados Unidos, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Emmanuel Macron reafirmaram, nesta quarta-feira (20), o compromisso de avançar para a assinatura do acordo entre Mercosul e União Europeia. As negociações, que já se arrastam há mais de duas décadas, continuam enfrentando resistência, sobretudo por parte da França.
Macron tem declarado que o texto atual não contempla exigências ambientais vinculadas à produção agrícola e industrial, enquanto Lula responde acusando o governo francês de adotar uma postura protecionista em defesa do setor agrícola local. O Brasil, que ocupa neste semestre a presidência do Mercosul, tem como meta concluir o entendimento ainda em 2025.
Segundo nota do Palácio do Planalto, “Macron e Lula comprometeram-se a ultimar o diálogo com vistas à assinatura do acordo Mercosul-União Europeia ainda neste semestre, durante a presidência brasileira do bloco”. O comunicado acrescenta que “o Brasil continuará trabalhando para concluir novos acordos comerciais e abrir mercados para a produção nacional”.
A ligação entre os dois líderes durou cerca de uma hora e tratou de temas bilaterais e internacionais. “Reafirmaram seu apoio ao multilateralismo e ao livre comércio”, informou a Presidência, destacando ainda o objetivo comum de fortalecer a cooperação entre países desenvolvidos e o Sul Global em prol de um comércio baseado em regras multilaterais.
Paralelamente, o Mercosul vem ampliando sua rede de parceiros. Recentemente, fechou acordo com a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta), composta por Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça, e negocia com Japão, Vietnã e Indonésia.
O Brasil também articula uma cúpula virtual do Brics para setembro, em meio à escalada tarifária dos EUA. Para analistas, as medidas impostas por Washington têm caráter de pressão política e se inserem na disputa contra o Brics, especialmente diante da proposta do grupo de reduzir a dependência do dólar em transações comerciais.
No início de agosto, Trump elevou para 50% a tarifa de importações de determinados produtos brasileiros. Segundo ele, a decisão foi uma retaliação às políticas que afetariam empresas de tecnologia norte-americanas, além de resposta à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de liderar uma tentativa de golpe de Estado após a derrota nas eleições de 2022.
Na conversa com Macron, Lula criticou o uso político de barreiras comerciais e informou sobre a ação protocolada na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as “injustificadas tarifas norte-americanas”. Ele também descreveu as medidas adotadas para proteger trabalhadores e empresas brasileiras.
Outro ponto abordado no diálogo foi a agenda ambiental. Macron confirmou presença na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), marcada para novembro em Belém, no Pará. Para Lula, o encontro será a “COP da verdade”, momento em que ficará evidente quais países realmente acreditam na ciência como base para enfrentar a crise climática. De acordo com o Planalto, “o presidente Lula destacou a ambição das metas nacionalmente determinadas apresentadas pelo Brasil e realçou a importância de que a União Europeia e seus membros apresentem metas à altura do desafio que o planeta enfrenta”.
Os dois líderes também discutiram o conflito entre Rússia e Ucrânia. Macron esteve recentemente em Washington, acompanhando o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskiy em encontro com Donald Trump, que tem pressionado por um desfecho para a guerra. No telefonema, o francês elogiou a atuação do Grupo de Amigos da Paz, iniciativa de Brasil e China que busca convergências internacionais em prol de soluções diplomáticas. Segundo o Planalto, “os dois presidentes acordaram continuar o diálogo sobre o conflito”.
Lula aproveitou a ocasião para alertar sobre o crescimento dos gastos militares em contraste com os desafios sociais. “O presidente Lula demonstrou preocupação com o aumento dos gastos militares no mundo, enquanto cerca de 700 milhões de pessoas ainda passam fome. Registrou, nesse contexto, a saída do Brasil do Mapa da Fome da FAO e defendeu a reforma das instituições multilaterais em favor de uma governança global mais representativa e democrática”, diz a nota oficial.
No campo bilateral, Lula e Macron reforçaram a intenção de ampliar a cooperação em defesa, setor no qual os dois países já mantêm parcerias em projetos estratégicos de construção de helicópteros, submarinos e satélites. A expectativa é que essa área de colaboração continue a se expandir, fortalecendo laços industriais e tecnológicos.
Foto: Ricardo Stuckert/PR

