O envio de navios de guerra norte-americanos à costa da Venezuela e a presença de um avião branco, sem bandeira, com agentes da CIA no Sul do Brasil geraram desconforto entre o governo brasileiro e Washington. Apesar da tentativa das Forças Armadas e do Itamaraty de adotar tom de cautela, os movimentos do governo Donald Trump em direção à América Latina e, em especial, ao Brasil, são vistos como incomuns e cada vez mais provocativos.

A última grande operação militar dos Estados Unidos na região havia ocorrido há cerca de 25 anos, no chamado Plano Colômbia, contra cartéis de drogas. A diferença é que, naquela época, tratou-se de uma ação conjunta com apoio internacional, e não de um governo atuando de forma unilateral, como agora.

Enquanto a presença do avião em território brasileiro teve autorização formal da Defesa e não chega a ser novidade, a chegada de destróieres e de três navios de guerra sob a justificativa de combater o crime organizado causa preocupação. Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro tentam transmitir tranquilidade, mas reconhecem que as atitudes e recados de Trump se tornam “sequenciais e cada vez mais ameaçadores”.

Em resposta, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Itamaraty e as Forças Armadas decidiram “adiar” — na prática, cancelar — operações conjuntas com os Estados Unidos. Entre elas, estão treinamentos da Marinha, previstos para setembro em Formosa (GO), e do Exército, em outubro, em Petrolina (PE). Também foram suspensas as operações Arandu, em parceria com a Argentina, e Minuano, com o Uruguai.

O ministro da Defesa, José Múcio, encaminhou nota de apenas três linhas aos comandantes das Forças, sugerindo “a possibilidade de adiamento das atividades”. Posteriormente, a justificativa oficial foi de que o orçamento estaria concentrado na COP 30, em Belém, e na Operação Atlas, programada para outubro na fronteira com a Venezuela.

A medida é vista como recado político. Em 2015, quando os Estados Unidos grampearam o telefone da então presidente Dilma Rousseff, a reação brasileira foi apenas diplomática, sem ruptura em acordos de cooperação. Agora, o sinal é de esfriamento nas relações militares.

Atualmente, centenas de militares brasileiros permanecem nos Estados Unidos em programas de cooperação e compras governamentais. Contudo, as relações bilaterais, que completam dois séculos, estão “adiadas” até que se defina o avanço da política de Trump sobre a Venezuela e o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Foto: Bernat Armangue

 


Avatar

administrator