Nos últimos meses, os dados da inflação no Brasil têm mostrado sinais de alívio, com quedas registradas tanto no índice oficial quanto nas projeções dos analistas de mercado. A prévia da inflação de agosto apontou uma deflação de 0,14%, enquanto o Boletim Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central, reduziu suas estimativas para o índice por catorze semanas consecutivas. Apesar desse cenário mais favorável, economistas alertam que o movimento ainda pode ser temporário e que fatores estruturais e políticos podem limitar uma queda mais consistente no médio e longo prazo.

O relatório macroeconômico da XP Investimentos destaca que os núcleos de inflação, que medem a tendência dos preços sem os itens mais voláteis, vêm apresentando uma reversão gradual. No primeiro trimestre, a média desses núcleos era de 6%, enquanto atualmente se encontra em 4,5%, ainda distante da meta de 3% perseguida pelo Banco Central. Segundo a XP, a desaceleração da economia brasileira ocorre de forma lenta e é influenciada por diversos fatores, como a valorização do real, a perda de dinamismo da atividade econômica no segundo trimestre, o aquecimento do mercado de trabalho e as medidas de estímulo fiscal adotadas pelo governo.

A gestora Warren projeta que o IPCA de agosto, que será divulgado nesta quarta-feira (10), apresente deflação de -0,17%, acumulando 5,17% nos últimos doze meses. Para setembro, a expectativa é de alta de 0,73%. Já a Buysidebrazil prevê uma deflação de -0,18% em agosto.

Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, explica que existem dois movimentos acontecendo simultaneamente: no curto prazo, a inflação cai por fatores pontuais; no médio e longo prazo, os efeitos da política monetária restritiva começam a aparecer. No entanto, ele ressalta que a queda poderia ser maior se não houvesse forte expansão dos gastos públicos. “Os gastos do governo funcionam como um freio de mão puxado, impedindo que a inflação recue com mais intensidade”, analisa Agostini.

No curto prazo, os preços têm sido impactados por fatores específicos, como a redução na tarifa de energia elétrica, maior oferta de alimentos – especialmente carnes e frutas – devido ao tarifaço, e o bônus de Itaipu, que compensou o aumento causado pela bandeira vermelha. Para a Warren, os destaques da deflação de agosto devem ser a gasolina, com queda estimada em -0,55%, as passagens aéreas, com -2,59%, e a energia elétrica, com retração de -4,85%. Na alimentação no domicílio, a expectativa é de redução de -0,94%, impulsionada por quedas em carnes (-0,35%), hortaliças (-1,11%), leguminosas (-2,96%) e tubérculos (-9,86%).

Entretanto, os efeitos do tarifaço sobre a economia brasileira ainda são incertos e deverão ser sentidos com mais clareza a partir de setembro. Mirella Hirakawa, coordenadora de pesquisa da Buysidebrazil, reforça que há expectativa de pressão baixista, mas que a magnitude desse impacto ainda não pode ser estimada com precisão. Além das tarifas, fatores políticos também estão no radar dos investidores, como o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e suas possíveis consequências para as exportações brasileiras.

Agostini destaca ainda que, em um ano marcado por disputas no Congresso, o governo tende a ampliar os gastos para aprovar projetos de interesse, o que eleva a pressão inflacionária. “Quanto maiores os gastos do governo, maior a dificuldade de controlar a inflação”, alerta o economista.

No cenário internacional, uma possível redução da taxa de juros nos Estados Unidos pode trazer algum alívio para os preços no Brasil. Após a divulgação de dados que mostraram a criação de apenas 22 mil vagas de emprego em agosto, quando a expectativa era de 75 mil, o mercado passou a apostar em cortes de juros no país norte-americano. Caso se confirmem, o real pode se valorizar, reduzindo os custos de importação e, consequentemente, os preços no varejo. “No entanto, esse efeito demora para se refletir na inflação dentro da meta”, pondera Agostini.

A política monetária restritiva do Banco Central também começa a surtir efeito na atividade econômica. Desde junho, a taxa de juros real do Brasil está acima do chamado juro neutro, condição necessária para que o aperto monetário contenha a inflação. Atualmente, o juro real está em 9,76%, enquanto o juro neutro é estimado entre 5,5% e 6%. “Quando o juro real fica muito acima do juro neutro, a economia começa a desacelerar, pois os recursos migram de atividades produtivas para ativos financeiros, que passam a oferecer retorno mais atrativo. Isso provoca uma realocação de investimentos e reduz a atividade econômica”, explica Agostini.

Para 2026, a expectativa é de que a inflação continue em trajetória de queda, mas em ritmo mais lento, especialmente por se tratar de ano eleitoral, quando os gastos do governo tendem a aumentar, impulsionados por emendas parlamentares e programas sociais. “A política monetária vai continuar funcionando, mas seus efeitos serão limitados pela política fiscal expansionista. É como dirigir com o freio de mão puxado: o carro anda, mas não na velocidade ideal”, compara Agostini.

Outro fator que poderá impactar a inflação em 2026 é a reforma do Imposto de Renda, que pode tornar os preços de serviços mais resistentes à queda, segundo Mirella Hirakawa.

As projeções para o IPCA variam entre as instituições financeiras. A XP estima inflação de 4,8% para 2025 e 4,5% para 2026, enquanto a Warren projeta 4,85% e 4,50% para os mesmos anos, respectivamente. Já a Buysidebrazil prevê 4,7% em 2025 e 4,2% em 2026.

O relatório da XP também destaca que o Banco Central pretende manter a taxa Selic inalterada por um período prolongado, iniciando cortes graduais apenas a partir de janeiro. A expectativa é que a Selic encerre o ciclo de redução em 12%.

Diante desse cenário, economistas reforçam que, embora os números atuais tragam algum alívio, a inflação brasileira ainda enfrenta desafios estruturais e depende de fatores internos e externos. O equilíbrio entre política monetária, responsabilidade fiscal e estabilidade política será determinante para que o país alcance uma trajetória sustentável de preços e crescimento econômico nos próximos anos.

Foto: Nacho Doce

 


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