Tambores e cantos deram o tom da abertura da 14ª edição do Festival Artes Vertentes, realizada na noite desta quinta-feira (11) em Tiradentes, Minas Gerais. O cortejo foi conduzido pelo Congado Nossa Senhora do Rosário e Escrava Anastácia, que percorreu as ruas históricas da cidade convidando moradores e visitantes a participarem da programação cultural que, nos próximos dias, ocupará centros culturais e espaços públicos. Este ano, o festival oferecerá 54 atividades, entre exposições, apresentações de música, teatro, literatura e exibições de cinema.

O tema de 2025, Entre as margens do Atlântico, propõe um diálogo entre três continentes conectados por laços históricos profundos: América, África e Europa. A programação também integra a Temporada da França no Brasil, que acontece até o final do ano em 15 cidades brasileiras, com o objetivo de aproximar os dois países por meio de experiências culturais.

Responsável por abrir oficialmente o festival, o mestre Claudinei Matias do Nascimento, conhecido como Mestre Prego, destacou a simbologia da congada. “Fico muito feliz de ser convidado para o festival, para fazer a abertura por meio do toque do tambor, que representa a nossa força e a nossa comunidade, do povo negro, que trabalhou essas terras”, afirmou. Ele lembrou as mais de 22 mil pessoas escravizadas que foram obrigadas a trabalhar na região durante o ciclo do ouro. Mestre Prego ressaltou ainda que a congada é uma maneira de manter viva a memória de quem teve a história apagada. “É uma cantiga também de alegria e uma cantiga de dor, \[que diz] ‘Ai, meu povo hoje é lembrado’”, explicou, referindo-se a uma antiga canção entoada em momentos de sofrimento e de rara felicidade.

O curador e diretor artístico do festival, Luiz Gustavo Carvalho, ressaltou que o evento tem foco na arte contemporânea e no diálogo entre diversas linguagens, como cinema, artes visuais e artes cênicas. Para ele, Tiradentes é parte essencial dessa proposta. “Nosso papel é tecer um diálogo entre o patrimônio imaterial e arquitetônico da cidade e, sobretudo, refletir sobre narrativas urgentes, que precisam ser abordadas. Um festival deve se conectar ao território ocupado por ele”, destacou.

Fundada por volta de 1702, Tiradentes surgiu quando exploradores paulistas descobriram ouro na Serra de São José, originando o arraial de Santo Antônio do Rio das Mortes. No século XVIII, tornou-se um importante centro produtor de ouro em Minas Gerais. Em 1889, com a Proclamação da República, a cidade recebeu o nome atual em homenagem a Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, líder da Inconfidência Mineira. Além da relevância histórica, a localização estratégica foi determinante para a escolha da cidade como sede do festival. “É muito importante realizar o evento no interior, saindo das capitais. Assim, intensificamos o diálogo entre as pessoas locais e os artistas de fora, reunindo culturas locais, regionais, nacionais e internacionais”, afirmou a diretora executiva do festival, Maria Vragova.

Durante a abertura, formações musicais ligadas à Ação Cultural Artes Vertentes também se apresentaram. O projeto, criado em 2013, oferece cursos gratuitos de música, cerâmica, fotografia e artes visuais para crianças, adolescentes e adultos de Tiradentes durante todo o ano, sendo um dos desdobramentos permanentes do festival.

A edição deste ano traz atrações internacionais, em sintonia com a Temporada da França no Brasil. Entre os destaques estão Wendie Zahibo, poeta, fotógrafa e colagista que atua entre Guadalupe e França, e Jean D’Amérique, poeta, dramaturgo e romancista, além de diretor do festival Transe Poétique, no Haiti. A comissária-geral da Temporada França-Brasil, Anne Louyot, ressaltou a importância desse intercâmbio cultural. “\[A Temporada] inclui também uma dimensão de encontro com outras culturas e, em particular, com as culturas africanas, que tanto influenciaram a Europa e as Américas. Influenciaram de maneira dolorosa, não podemos esquecer a história da escravidão, e continuam a influenciar de forma maravilhosamente frutífera, por meio da música, espiritualidade e riqueza artística”, afirmou.

Além de Tiradentes, a programação se estende a cidades vizinhas como São João del Rei e Bichinho, com mostras de cinema voltadas para temas como memória, ancestralidade e resistência. O festival segue até a próxima semana, consolidando-se como um espaço de celebração da diversidade cultural e de reflexão sobre a história compartilhada entre povos e continentes.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil


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