Integrantes do governo brasileiro que acompanharam o encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump nesta terça-feira (23), em Nova York, descreveram a conversa como “rápida e amistosa”, com duração inferior a 20 segundos. Segundo eles, o gesto marcou o início de uma reaproximação política e diplomática entre os dois países em meio às recentes tensões comerciais e políticas.
Durante seu discurso na reunião da Assembleia Geral da ONU, Trump revelou que pretende se reunir com Lula na próxima semana, informação confirmada por auxiliares do presidente brasileiro. O formato do encontro, se será presencial ou virtual, ainda não foi definido, assim como data e horário.
A avaliação dentro do governo brasileiro é que o anúncio feito por Trump representa uma derrota para o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro está nos Estados Unidos desde fevereiro, buscando influenciar autoridades americanas a adotar sanções contra cidadãos brasileiros.
Trump relatou como se deu o breve contato com Lula. “Eu encontrei o líder do Brasil ao entrar aqui, nós nos abraçamos e eu falei para ele: ‘dá para acreditar nisso?’ Não tivemos muito tempo para falar, tivemos 20 segundos, mas concordamos em conversar na semana que vem. Ele parece um homem muito agradável, eu gosto dele. E ele gosta de mim, eu gosto de fazer negócios com pessoas de quem eu gosto. Se eu não gosto da pessoa, não gosto, mas tivemos ali 30 segundos e uma química excelente”, afirmou Trump.
Apesar do tom amigável, Trump fez uma ressalva ao falar sobre as relações comerciais. “No passado, o Brasil tarifou nosso país de uma maneira muito injusta e, por causa dessas tarifas, temos as tarifas de volta. Como presidente americano, eu defendo a soberania e o direito de americanos. O Brasil está indo mal e vai continuar indo mal. Eles só irão bem se trabalharem conosco. Sem a gente, eles vão falhar como outros falharam”, disse.
Segundo membros da delegação brasileira, a conversa ocorreu em uma sala reservada, logo após o discurso de Lula na ONU, no qual ele fez críticas indiretas ao governo Trump. O presidente americano assistiu ao discurso pela televisão antes do encontro.
Para o governo brasileiro, o gesto de Trump foi recebido com alívio, pois abre caminho para negociações sobre o chamado tarifaço. Tentativas anteriores de diálogo, conduzidas pelo Itamaraty e pelos ministros Geraldo Alckmin (Desenvolvimento) e Fernando Haddad (Fazenda), não avançaram por falta de disposição do lado americano. Agora, a expectativa é de retomada das conversas.
A ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, classificou o gesto como uma “surpresa boa”. “Acho que foi uma surpresa. Parece que Trump gostou do presidente Lula. Não tinha nada marcado, mas podem se encontrar ainda hoje”, afirmou.
Apesar da ausência de detalhes sobre o futuro encontro, auxiliares do presidente consideram que o simples contato já é positivo. Desde que Trump anunciou o tarifaço em julho, Lula vinha sendo criticado por não ter procurado o americano para tratar do tema, além de manter críticas públicas ao governo dos EUA.
No discurso realizado na manhã desta terça-feira, Lula voltou a criticar medidas recentes dos Estados Unidos sem mencionar nomes. A fala ocorreu um dia após o governo americano anunciar novas sanções contra brasileiros, incluindo Viviane Barci, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, e Jorge Messias, ministro-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU).
As sanções incluem o cancelamento de vistos e são amparadas na Lei Magnitsky, que prevê punições a estrangeiros acusados de corrupção grave ou violações de direitos humanos. A medida se soma à sobretaxa de 50% imposta aos produtos brasileiros por Trump em julho.
Lula reagiu em seu discurso, criticando a influência de grupos extremistas. “Essa ingerência em assuntos internos conta com o auxílio de uma extrema direita subserviente e saudosa de antigas hegemonias. Falsos patriotas arquitetam e promovem publicamente ações contra o Brasil. Não há pacificação com impunidade”, afirmou, em referência à proposta de anistia para os envolvidos na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.
O presidente também defendeu o Judiciário brasileiro e destacou a importância do recente julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Há poucos dias, e pela primeira vez em 525 anos de nossa história, um ex-chefe de Estado foi condenado por atentar contra o Estado Democrático de Direito. Foi investigado, indiciado, julgado e responsabilizado pelos seus atos em um processo minucioso. Teve amplo direito de defesa, prerrogativa que as ditaduras negam às suas vítimas”, concluiu Lula, reafirmando que “nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”.
Foto: Ricardo Stuckert / PR

