O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) anunciou nesta terça-feira (30) uma revisão para baixo em sua estimativa de inflação para 2025. A nova previsão aponta para 4,8%, ante os 5,2% divulgados anteriormente. A decisão foi motivada pela valorização do real frente ao dólar e pelas quedas consecutivas no preço dos alimentos, que têm puxado a taxa para baixo.
A projeção leva em conta o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em agosto, o índice registrou deflação de 0,11%, acumulando alta de 5,13% nos últimos 12 meses. Apesar do recuo, o resultado ainda supera a meta estabelecida pelo Banco Central (BC), fixada em 3% ao ano, com tolerância de até 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Dessa forma, o teto é de 4,5%, ligeiramente abaixo da nova previsão do Ipea.
Segundo as pesquisadoras do instituto Maria Andréia Parente Lameiras e Tarsylla da Silva de Godoy Oliveira, autoras da Carta de Conjuntura, “o ambiente inflacionário brasileiro apresenta sinais de maior moderação, embora siga desafiador”. Elas ressaltaram que a valorização do câmbio — com queda do dólar frente ao real de cerca de 5% no último trimestre — ajudou a reduzir pressões sobre alimentos, combustíveis e bens industriais.
No caso específico dos alimentos, houve recuo de preços pelo terceiro mês consecutivo, levando o Ipea a reduzir a expectativa de inflação desse grupo de 6,7% para 4,4%. O instituto atribui parte desse movimento ao aumento da oferta, impulsionado por uma safra recorde.
Já em relação aos serviços, a projeção foi mantida em 6,2%, diante do aquecimento do mercado de trabalho. “Mesmo com uma leve desaceleração da atividade econômica, o mercado de trabalho segue bem apertado”, destacam as autoras. O IBGE informou que a taxa de desocupação atingiu 5,6% no trimestre encerrado em agosto, o menor nível da série histórica iniciada em 2012.
O Ipea é um órgão vinculado ao Ministério do Planejamento e Orçamento e desempenha papel relevante na formulação de políticas públicas. A revisão acompanha a decisão do Banco Central, que também reduziu sua projeção para 4,8%, em relatório divulgado na semana passada. Já o mercado financeiro, conforme o Boletim Focus publicado na segunda-feira (29), projeta inflação de 4,81%.
As pesquisadoras do Ipea avaliam que o processo de desaceleração inflacionária avança, mas de forma gradual e com custos significativos na área de política monetária. Atualmente, a taxa Selic está em 15% ao ano, o maior patamar desde 2006, quando chegou a 15,25%. Os juros elevados têm efeito contracionista, encarecendo crédito e desestimulando investimentos. Ao mesmo tempo, tornam aplicações financeiras mais atrativas em comparação com empreendimentos produtivos, o que acaba freando a atividade econômica.
Além do IPCA, o Ipea também revisou para baixo sua estimativa do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que passou de 4,9% para 4,5%. O INPC, calculado pelo IBGE, mede a variação de preços para famílias com renda entre um e cinco salários mínimos e costuma atribuir maior peso a gastos com alimentação. Em agosto, o índice acumulou 5,05% em 12 meses. O INPC é usado como referência para reajustes salariais de algumas categorias e na fórmula de cálculo do salário mínimo.
Com as novas projeções, o cenário indica uma convergência entre as expectativas do Ipea, do Banco Central e do mercado financeiro, todos em torno de 4,8%. Embora o resultado ainda esteja acima da meta de 3%, o consenso reforça a percepção de que a inflação caminha para um processo de acomodação, mesmo em meio ao custo elevado dos juros.
Foto: Valter Campanato /Agência Brasil

