O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), tem se tornado alvo de críticas tanto da oposição quanto de parte de aliados do Centrão, em meio a um delicado equilíbrio político que envolve o governo Lula, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o próprio comando do Congresso. Embora tenha conquistado o apoio do PL no início do ano para consolidar sua liderança na Casa, Alcolumbre acumula atritos com a bancada bolsonarista e enfrenta desconfianças de setores que o ajudaram a chegar ao cargo.
O senador tem atuado para impedir o avanço de uma proposta de anistia ampla aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro, que beneficiaria o ex-presidente Jair Bolsonaro. Em vez disso, defende um modelo de redução de penas mais restrito, cuja discussão perdeu força nas últimas semanas. Essa postura o afastou da oposição e colocou em xeque parte de suas alianças com o PL.
Além disso, Alcolumbre trabalhou para barrar a chamada PEC da Blindagem, que previa a criação de barreiras adicionais para abertura de processos contra parlamentares. A proposta era resultado de um acordo entre o Centrão e a oposição na Câmara, e sua rejeição ampliou o desconforto com deputados que esperavam reciprocidade política do Senado.
Próximo de ministros do STF, o presidente do Senado também tem evitado qualquer debate sobre pedidos de impeachment de magistrados, o que irrita a ala bolsonarista. Duas semanas atrás, em plenário, ele reclamou que a insistência da oposição em atacar o Supremo tem tornado “impossível” a condução dos trabalhos legislativos.
Mesmo com as críticas, senadores ligados a Bolsonaro acreditam que o cenário pode mudar após as eleições de 2026, quando projetam aumento de representatividade e esperam negociar apoio à reeleição de Alcolumbre na presidência do Senado em 2027. “Tenho certeza que ele tem palavra e não vai se furtar de pautar a matéria da anistia quando chegar ao Senado, por mais que não concorde com o texto”, disse o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O desgaste se estende à CPI do INSS, onde aliados de Bolsonaro acusam Alcolumbre de interferir para limitar o alcance das investigações. Segundo parlamentares, ele teria respaldado um parecer da Advocacia do Senado que impede a divulgação de dados sobre reuniões entre congressistas e o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Além disso, a oposição tenta associar o nome do senador Weverton Rocha (PDT-MA), aliado de Alcolumbre, ao empresário, numa estratégia vista como tentativa de constranger o presidente do Senado. Weverton negou qualquer vínculo com Antunes e refutou envolvimento em irregularidades.
Enquanto enfrenta pressões, Alcolumbre mantém interlocução próxima com o governo para assegurar a tramitação de pautas prioritárias no Senado, como o projeto de isenção do Imposto de Renda, e para reduzir os impactos da saída do União Brasil da base aliada.
Em outro front, Alcolumbre também vive atritos com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e líderes do Centrão. A rejeição da PEC da Blindagem no Senado gerou insatisfação na Câmara, somando-se à tensão causada pela iniciativa do senador Renan Calheiros (MDB-AL), que articulou o avanço de uma proposta própria de ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda — medida que enfraqueceu o projeto semelhante relatado pelo ex-presidente Arthur Lira (PP-AL), rival de Renan em Alagoas.
Hugo Motta admitiu a aliados que a decisão sobre a PEC irritou deputados, mas tenta evitar o agravamento da crise entre as Casas. “Isso é natural. Tem hora que a situação está ruim, depois melhora. As duas Casas precisam trabalhar juntas”, resumiu o deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), relator do projeto de dosimetria das penas.
Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

