A base do governo Lula conseguiu nesta quinta-feira derrubar, por 17 votos a 13, o pedido de quebra dos sigilos fiscal e telemático do advogado Paulo Boudens, ex-chefe de gabinete do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), durante sessão da CPI do INSS. A medida havia sido proposta pela oposição, que tenta investigar o envolvimento do ex-assessor em repasses milionários da empresa Arpar Participações, apontada pela Polícia Federal como “conta de passagem” do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.

Coordenador da ala governista na CPI, o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) justificou o voto contrário, acusando a oposição de tentar transformar a comissão em um palanque político. “Querem trazer um debate com o presidente dessa Casa que não é objeto dessa investigação. Resolvam isso no plenário. Daqui a pouco vão trazer um requerimento para saber quem matou a Odete Roitman. O único suspeito que não foi suspeito é o presidente Jair Bolsonaro porque ele não pode sair de casa”, ironizou o parlamentar.

O autor do requerimento, deputado Carlos Jordy (PL-RJ), reagiu, afirmando que a decisão representa uma tentativa de “blindar” Alcolumbre. “Eles não estão querendo investigar desde o início. Estamos vendo esse grupo fazer narrativa e blindagem. É isso que vai acontecer se for rejeitado esse requerimento. Ele (Boudens) é um peixe médio e pertence a um peixe muito grande”, declarou Jordy, lembrando que Alcolumbre determinou sigilo sobre as visitas do ‘Careca do INSS’ ao Senado.

O nome de Boudens apareceu em um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que identificou movimentações suspeitas em sua conta, incluindo um repasse de R$ 3 milhões da Arpar Participações entre setembro de 2023 e fevereiro de 2024. À época, o advogado ainda atuava no gabinete de Alcolumbre, e, desde outubro do ano passado, ocupa um cargo no Conselho Político do Senado.

Procurado, Boudens preferiu não se manifestar. Já o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, em depoimento à CPI, disse que os valores enviados à Arpar se referem à compra de títulos de dívida da empresa. “Referente à Arpar, que é uma empresa que eu comprei debêntures dela. É uma empresa de tecnologia, onde realmente eu estou investindo, porque, conforme disse na minha fala inicial, eu sou um empresário que atua em várias frentes, não só a médio ou curto prazo”, afirmou.

A CPI apura a participação de sindicatos e empresas em fraudes bilionárias no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), envolvendo descontos irregulares em benefícios previdenciários e contratos fraudulentos. O “Careca do INSS” é apontado como o principal operador financeiro do esquema e teria movimentado cerca de R$ 50 milhões por meio da Arpar.

Em 2021, Boudens já havia sido citado em um escândalo de rachadinha no gabinete de Alcolumbre, revelado pela revista *Veja*. O caso indicava que pessoas ligadas ao senador recolhiam parte do salário de seis assessoras que ganhavam entre R$ 4 mil e R$ 14 mil. À época, Alcolumbre negou irregularidades e disse que as contratações eram de responsabilidade do chefe de gabinete.

Posteriormente, Boudens firmou um acordo de não persecução penal com a Procuradoria-Geral da República (PGR), admitindo as irregularidades e se comprometendo a devolver cerca de R$ 2 milhões aos cofres públicos.

Além de rejeitar a quebra de sigilo de Boudens, a CPI também confirmou a convocação de Milton Baptista de Souza, o Milton Cavalo, presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), para prestar depoimento ainda nesta quinta-feira, dando continuidade às investigações sobre o desvio de recursos no sistema previdenciário.

Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado


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