Um novo estudo indica que o Brasil tem potencial para dobrar sua produção e consumo de biocombustíveis, como etanol, biodiesel e bioquerosene, até 2050, sem necessidade de desmatamento. A ampliação seria possível utilizando apenas um quarto dos cem milhões de hectares de pastagens degradadas existentes no país.

Segundo Felipe Barcellos, pesquisador do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), os dados utilizados têm como base o mapeamento do MapBiomas, que identificou cem milhões de hectares de pastos degradados. “O grande achado do estudo é que a gente tem cerca de cinquenta e seis milhões de hectares de pastagens degradadas que podem ser recuperadas para a agricultura. E dentro dessas cinquenta e seis milhões, seria possível destinar entre vinte e trinta e cinco milhões de hectares para biocombustíveis”, explicou.

O levantamento é uma continuidade de duas pesquisas anteriores — a Proposta de NDC (Contribuições Nacionalmente Determinadas) do Observatório do Clima, divulgada em agosto de 2024, e um estudo sobre o futuro da matriz energética brasileira. “Combinamos os cenários de energia e de uso da terra para avaliar se seria possível ampliar os biocombustíveis sem aumentar as emissões por desmatamento, sem competir com a produção de alimentos e ainda reduzir emissões de energia”, detalhou Barcellos.

De acordo com o pesquisador, os resultados mostram que o Brasil pode atender à demanda por biocombustíveis necessária a uma economia de carbono neutro até 2050, ocupando exclusivamente áreas já degradadas. “A transição energética precisa de ações de curto, médio e longo prazo, e o uso de biocombustíveis é um dos caminhos mais imediatos e viáveis para reduzir as emissões no transporte”, afirmou.

Ele ponderou, contudo, que o processo exige controle e planejamento rigoroso. “Esses trinta e cinco milhões de hectares seriam adicionados à atual produção agrícola. Não é uma demanda pequena e precisa ser manejada com cuidado para evitar novos impactos ambientais”, observou.

O estudo também destaca a necessidade de ampliar políticas públicas voltadas à recuperação de pastagens, tanto para regeneração da vegetação nativa quanto para o uso produtivo sustentável. “Um exemplo é o programa Caminhos Verde Brasil, que incentiva a recuperação de pastagens e a produção de biocombustíveis ou de pastagens de alto vigor”, citou Barcellos.

Além do poder público, o setor privado é apontado como peça-chave para ampliar a produtividade em áreas menores e diversificar o uso de matérias-primas. “O etanol hoje é o chamado de primeira geração, produzido a partir do álcool da cana-de-açúcar. Mas podemos aumentar a produtividade com o etanol de segunda geração, feito do bagaço da cana”, explicou.

O estudo também defende a diversificação das culturas utilizadas para a produção de biodiesel, reduzindo a dependência de monoculturas como soja e milho. “A ideia é buscar métodos produtivos menos degradantes e de menor impacto ambiental. Um bom exemplo é a macaúba, espécie nativa que pode ser cultivada em sistemas agroflorestais e em áreas menores, contribuindo para a preservação do solo”, disse o pesquisador.

Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, afirmou que o estudo será fundamental para o debate internacional durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em novembro, no Brasil. “Esse estudo faz parte do fortalecimento do Grupo de Trabalho Clima e Energia do Observatório do Clima, que reúne trinta organizações especializadas em energia para ampliar o olhar sobre o tema”, destacou.

Para ela, a pesquisa fornece subsídios concretos para que a transição energética seja justa e adequada à realidade de cada território. No caso brasileiro, a eletrificação total das frotas de transporte de alimentos ainda não é viável, e os biocombustíveis podem preencher essa lacuna de forma sustentável.

“A ideia é intensificação com foco nas pastagens degradadas, respeitando as salvaguardas ambientais e indo muito além do que se faz hoje”, concluiu Suely Araújo.

Foto: Amanda Perobelli


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