O avanço do diálogo entre as diplomacias do Brasil e dos Estados Unidos, que terá nova etapa em uma reunião entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, até o final da semana, despertou uma rara convergência de expectativas entre o governo Lula e a oposição no Congresso. Fontes próximas a ambos os lados avaliam que as sanções comerciais e até as revogações de vistos de autoridades brasileiras impostas pela Casa Branca devem ser revertidas.

A percepção no entorno do presidente e entre parlamentares que mantêm interlocução com representantes norte-americanos é que a estratégia diplomática conduzida pelo Itamaraty tem obtido êxito em neutralizar a influência do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sobre o governo Donald Trump. Embora o filho do ex-presidente e seus aliados tenham comemorado a escolha de Rubio como interlocutor do presidente americano, o clima em Brasília é de otimismo. “A diplomacia brasileira conseguiu reduzir a temperatura e recolocar o diálogo em bases institucionais”, comenta um assessor do Ministério das Relações Exteriores.

Marco Rubio, atualmente secretário de Estado, é um dos formuladores das sanções comerciais e políticas impostas ao Brasil e a integrantes do Judiciário, entre eles o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Crítico de Moraes desde o período em que foi senador pela Flórida, Rubio, apesar de suas posições ideológicas, tem atuado como colaborador leal de Trump na condução da política externa. Nos bastidores, o republicano vem sendo pressionado por setores empresariais dos Estados Unidos afetados pelas tarifas aplicadas aos produtos brasileiros e por corporações com forte presença no país, como a JBS, que foi uma das maiores doadoras de sua cerimônia de posse.

A ofensiva norte-americana contra o Brasil foi, em sua origem, associada ao julgamento de Jair Bolsonaro no STF, episódio que o próprio Trump classificou como uma “caça às bruxas”. Entretanto, fontes próximas à Casa Branca indicam que o contexto mudou e que as medidas restritivas passaram a ser vistas como contraproducentes para os interesses econômicos americanos.

No Congresso brasileiro, integrantes da bancada bolsonarista admitem, com resignação, que até mesmo as revogações de vistos aplicadas contra autoridades e ministros do Supremo podem ser revertidas. Persistem dúvidas apenas quanto às restrições impostas pela Lei Magnitsky contra o ministro Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes. Do lado do governo, a expectativa é mais moderada: “Nosso foco é resolver o tarifaço e encerrar a investigação comercial aberta pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA”, afirmou um diplomata ligado ao Itamaraty.

A última manifestação pública de Washington sobre o tema ocorreu em 22 de setembro, quando o Departamento de Estado anunciou novas sanções a Viviane Barci de Moraes sob a justificativa de “participação em abusos de direitos humanos”, em clara retaliação ao julgamento do ex-presidente Bolsonaro. No dia seguinte, Trump surpreendeu ao interromper seu discurso na Assembleia Geral da ONU para revelar que havia se encontrado com Lula nos bastidores e que os dois tiveram uma “excelente química” durante uma breve conversa. O republicano, contudo, voltou a mencionar alegações infundadas sobre um suposto desequilíbrio na balança comercial entre os países.

A reaproximação entre os dois governos vinha sendo costurada desde o início de setembro, por meio de contatos diplomáticos discretos. O telefonema entre Lula e Trump, ocorrido no último dia 6, marcou um ponto de virada nas negociações e, segundo relatos do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, “foi conduzido em tom amistoso e pragmático”.

Trump destacou o diálogo com Lula em sua rede Truth Social e mencionou o presidente brasileiro nominalmente pela primeira vez desde sua posse. “Tive uma ótima conversa telefônica nesta manhã com o presidente Lula, do Brasil. Discutimos muitos assuntos, mas o foco principal foi a economia e o comércio entre nossos dois países”, publicou o mandatário americano.

Teremos novas discussões e nos encontraremos em um futuro não muito distante, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Gostei da conversa — nossos países se darão muito bem juntos!”, acrescentou o republicano.

Nesta terça-feira, Mauro Vieira deixou Roma com destino a Washington para ajustar os últimos detalhes da reunião com Rubio, prevista para ocorrer até o final da semana. De acordo com o Itamaraty, estão programadas conversas bilaterais reservadas e um encontro ampliado com as equipes técnicas dos dois países. O objetivo é preparar a reunião presencial entre Trump e Lula, cuja data ainda não foi definida.

A aparente distensão entre Brasília e Washington representa uma inflexão significativa na relação entre Lula e Trump. Nos últimos anos, os dois trocaram ofensas públicas. Trump chegou a se referir ao petista como “lunático” durante a campanha presidencial brasileira de 2022, enquanto Lula o chamou de “nazismo com outra cara” ao declarar apoio à democrata Kamala Harris na eleição de 2024.

Agora, com o avanço das tratativas diplomáticas e a retomada de interesses econômicos compartilhados, a perspectiva é de uma convivência pragmática, marcada por comércio e diálogo político, após anos de animosidade mútua.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil


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