O economista José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade de Columbia e membro do conselho consultivo de finanças da presidência brasileira da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), afirmou que o multilateralismo é o caminho mais eficaz para resolver o impasse global sobre o financiamento climático destinado aos países em desenvolvimento. “A COP é o caminho. É um ótimo lugar para ter ideias, criar e tentar propor soluções”, declarou durante entrevista coletiva nesta terça-feira (14), na Pré-COP realizada em Brasília.
Scheinkman destacou que a definição de metas financeiras deve ser precedida por etapas de planejamento e avaliação de projetos, antes de se fixar um valor como o de US$ 1,3 trilhão, atualmente debatido nos fóruns internacionais. “Um economista pensa numa meta onde quer chegar. Neste caso é alcançar a neutralidade nas emissões de gases do efeito estufa. Depois vêm os projetos mais baratos, já que a quantidade de dinheiro é escassa, e só então descobrimos quanto custa”, explicou.
Essa linha de raciocínio orienta o grupo de economistas que assessora a presidência da COP30 em temas financeiros. Entre as propostas apresentadas pelo grupo estão o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), o programa Ecoinvest, a criação de uma coalizão aberta de países para um mercado global de carbono e a transferência de subsídios do setor de combustíveis fósseis para fontes renováveis de energia.
Segundo Scheinkman, essas iniciativas ainda não foram formalmente adotadas pelos signatários do Acordo de Paris, mas podem contribuir de maneira decisiva para reduzir as emissões globais. “O lugar onde a gente corta emissões é completamente irrelevante. O importante é quanto se corta no agregado. Uma tonelada de CO² equivalente cortada no Brasil tem o mesmo impacto de uma tonelada cortada na China”, observou.
O economista apontou que o modelo europeu de redistribuição de cotas de emissões pode inspirar um sistema internacional de cooperação. “A União Europeia definiu o valor das emissões que quer ter até um determinado ano e distribuiu cotas de forma que privilegia países menos desenvolvidos. Esse processo permite redistribuição e, ao mesmo tempo, eficiência”, afirmou.
No entanto, Scheinkman reconheceu que obstáculos políticos e econômicos ainda dificultam um consenso global. Países da própria União Europeia, advertiu, podem resistir a integrar uma coalizão aberta para o mercado de carbono ou a aderir a fundos como o TFFF. Uma das principais controvérsias é a falta de padronização para mensurar créditos de carbono provenientes de florestas restauradas. “Para isso funcionar, seria preciso ter alguém para medir carbono com independência, um padrão de medição reconhecido e uma comissão responsável por contabilidade, verificação e avaliação de risco”, explicou.
O economista também lembrou que fatores ideológicos afetam a cooperação internacional. “Nos Estados Unidos, certas barreiras políticas e culturais ainda impedem o engajamento em iniciativas multilaterais de crédito de carbono”, observou.
Por outro lado, ele vê oportunidades de atrair países em desenvolvimento, especialmente os que possuem vastas áreas naturais. Regiões com florestas tropicais, como a Amazônia e partes da África, poderiam gerar créditos de carbono de forma mais barata e com menor investimento inicial. “Na África, muitas pessoas ainda cozinham com lenha, o que tem custo ambiental e de saúde altíssimo. É muito barato parar, mas eles não têm orçamento para isso e ainda precisam investir em adaptação”, disse.
Scheinkman argumenta que investir em créditos de carbono fora do próprio país pode ser financeiramente mais vantajoso do que interromper atividades produtivas eficientes. Ele vê nessas iniciativas uma possibilidade de transição climática justa, ainda que dependente da adesão dos países. “Gerar crédito de carbono externo pode ser uma forma mais barata de cumprir metas climáticas, mas isso não garante o interesse de todos os governos”, ponderou.
Encerrando sua fala, o economista enfatizou que o papel dos especialistas é formular propostas e caminhos possíveis, enquanto a negociação política cabe aos representantes dos países. “Nosso papel é gerar ideias. A factibilidade é um problema dos negociadores”, concluiu.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

