O debate interno sobre quem representará a centro-direita na eleição presidencial de 2026 ganhou novo capítulo com a movimentação do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), que tem defendido que eventuais candidaturas interessadas em obter apoio de legendas de perfil moderado precisam se posicionar de maneira claramente afastada do discurso bolsonarista. Em meio à reorganização das forças políticas para o próximo pleito, Leite tem reiterado que, embora o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), seja hoje o nome mais lembrado dentro do campo conservador, receber apoio institucional do PSD ou de outros partidos próximos ao centro dependerá de uma sinalização concreta de distanciamento da retórica radical associada ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao fazer essa avaliação, o gaúcho tenta se apresentar como uma alternativa capaz de articular apoios sem reproduzir a lógica polarizada que marcou os últimos ciclos eleitorais.
A manifestação pública de Leite ocorreu em São Paulo, antes de um almoço com empresários, ocasião em que ele afirmou: “Eu tenho dito o seguinte: se o governador Tarcísio deseja ser candidato e ter o nosso apoio, não somos nós que vamos fazer o movimento para um discurso bolsonarista, mas ele que precisa de um posicionamento mais ao centro e mais afastado do bolsonarismo”. Segundo ele, partidos do centro “não devem bolsonarizar ou radicalizar o seu discurso” e que, ao menos da sua parte, não há disposição em reproduzir o padrão de alinhamento automático ao campo mais radicalizado da direita.
A cobrança ocorre no momento em que Tarcísio reforça vínculos políticos com o ex-presidente. O governador paulista articulou, no Congresso, a proposta de anistia a condenados pelos atos de 8 de janeiro e por tentativa de golpe de Estado, medida vista como uma forma de atender às expectativas do núcleo mais fiel do bolsonarismo. Além disso, em manifestação pública no Dia da Independência, na Avenida Paulista, chamou o ministro Alexandre de Moraes, relator da chamada “trama golpista” no Supremo Tribunal Federal, de “tirano”, episódio interpretado como demonstração de lealdade a Bolsonaro, hoje condenado a 27 anos e três meses de prisão.
Ainda assim, Leite ponderou que Tarcísio, em outros ambientes, demonstra postura distinta. “Em todos os contextos que tive com ele, ele apresentou uma postura muito razoável, de gestor centrado e preocupado em melhorar a performance do governo”, declarou. Segundo o gaúcho, parte das manifestações mais contundentes teria relação com a “lealdade a alguém que lhe abriu espaço na sua trajetória”, e não necessariamente com o conjunto de convicções pessoais do governador paulista. Mesmo assim, ele afirma que, para ser viável como candidato de largo apoio, é preciso um gesto político claro em direção ao centro.
Além de se diferenciar de Tarcísio, Leite evita tratar o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), como favorito interno. A interlocutores, Kassab tem sinalizado simpatia por seu nome, e jantares anteriores reforçaram essa leitura. Leite, porém, relativizou o movimento, afirmando que também participará de eventos partidários no eixo Sudeste, especialmente em encontros com associações comerciais. Sobre Ratinho, declarou que se trata de um quadro relevante e longevo dentro do PSD, mas ponderou que “a decisão da candidatura depende do contexto, da circunstância”, e que ele próprio considera trazer uma alternativa em razão do discurso “mais independente” tanto de Lula quanto de Bolsonaro.
Ao comentar recentes pesquisas que mostram sinal de leve recuperação da popularidade do presidente Lula, Leite avaliou que esse movimento ainda é restrito e conjuntural. Ele afirmou que “essa recuperação de popularidade do presidente Lula ainda é muito tênue” e que não seria correto interpretar os números como forte aprovação. Seguindo seu argumento, disse que a percepção favorável decorre, em parte, dos efeitos negativos das declarações de Eduardo Bolsonaro no exterior, quando o deputado reforçou discurso segundo o qual haveria perseguição judicial no Brasil e, em reação, o governo Donald Trump anunciou tarifações e sanções contra autoridades brasileiras. Para Leite, esse episódio fez com que Lula parecesse relativamente mais moderado diante do desgaste gerado pelo radicalismo bolsonarista no exterior, mas não representa ganho político estrutural.
Leite também comentou a possibilidade de Eduardo Bolsonaro tentar a Presidência, avaliando que o deputado “parece ter muita disposição” para se colocar na disputa, mesmo enfrentando restrições jurídicas. Ao mesmo tempo, afirmou que considera mais saudável para a esquerda que surja uma alternativa a Lula dentro do próprio campo, citando que o petista já participou de sete eleições presidenciais. Ele sugeriu que a democracia se fortalece quando há renovação de nomes e quando o eleitorado pode votar “a favor de um projeto”, e não apenas contra o adversário.
Segundo o governador gaúcho, a disputa de 2026 exigirá uma reorganização do campo político que não repita o modelo de antagonismo fechado entre lulismo e bolsonarismo, sob o risco de reproduzir o ambiente de instabilidade institucional. Com isso, vem construindo gradualmente um discurso que tenta atrair setores eleitorais refratários ao extremismo, mas sem romper com o espectro da centro-direita, do qual busca permanecer interlocutor. Até o momento, Kassab não formalizou preferência interna, e o PSD mantém discurso de que decidirá a estratégia eleitoral somente no ano que vem.
Diante desse quadro, a posição de Leite funciona como aviso de que o apoio do PSD — partido visto como peça-chave para qualquer candidatura competitiva fora do lulismo — dependerá de uma inflexão programática por parte de Tarcísio, caso ele pretenda ocupar o espaço de candidatura nacional mais ampla. Em sua avaliação, nomes competitivos precisarão sinalizar compromisso com estabilidade democrática e governabilidade, fatores que, segundo ele, não se conciliam integralmente com o alinhamento ao discurso bolsonarista mais radical. Com isso, Leite se coloca, indiretamente, como alternativa capaz de dialogar com setores moderados, enquanto testa a disposição de Tarcísio em acomodar apoios para além da base ideológica construída em torno de Bolsonaro.
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

