Os Correios anunciaram um amplo plano de reestruturação com o objetivo de enfrentar os déficits acumulados desde 2022, que inclui a possibilidade de mudança no regime societário da estatal e a abertura parcial de seu capital. Atualmente cem por cento pública, a empresa estuda se tornar uma sociedade de economia mista, modelo adotado por companhias como a Petrobras e o Banco do Brasil, que mantêm controle estatal, mas contam com acionistas privados.
A proposta foi apresentada nesta segunda-feira em coletiva de imprensa pelo presidente dos Correios, Emmanoel Rondon, em Brasília. Segundo ele, a direção aguarda a conclusão dos trabalhos de uma consultoria contratada para apresentar cenários e alternativas de transformação da empresa. “Hoje não tem um olhar sobre privatização, mas tem um olhar sobre parcerias, inclusive societárias”, afirmou. “Tem exemplos de sociedade de economia mista que funcionam e outros em que há parcerias específicas para temas relevantes, como negócios financeiros e seguridade”, acrescentou.
Rondon ressaltou que ainda não há definição sobre o formato das mudanças. “Não tem nenhuma definição de que tipo de parceria vai ser feita ainda. É preciso aguardar o resultado da consultoria”, disse. De acordo com a empresa, a eventual abertura de capital e as parcerias teriam como objetivo adequar os Correios a um ambiente cada vez mais competitivo no setor de logística, que exige maior flexibilidade operacional e investimentos contínuos em tecnologia.
O plano de reestruturação prevê ainda medidas duras de contenção de despesas. A estatal pretende fechar mil agências próprias em todo o país e implementar ações que resultem em economia estimada em R$ 5 bilhões até 2028. Entre essas iniciativas estão a venda de imóveis considerados ociosos e a realização de dois Programas de Demissão Voluntária, com a meta de reduzir o quadro de funcionários em cerca de quinze mil empregados até 2027.
Para garantir fôlego financeiro imediato, os Correios anunciaram a contratação de um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a cinco grandes bancos. Desse total, R$ 10 bilhões serão liberados ainda em 2025, enquanto os R$ 2 bilhões restantes estão previstos para janeiro de 2026. O contrato estabelece um período de carência de três anos para o início do pagamento. “Esse empréstimo vai permitir a adimplência nos contratos com fornecedores, nos benefícios de empregados e nos tributos”, afirmou Rondon. “Com as contas em dia e a qualidade da operação recuperada, a gente volta a ter confiança no mercado”, completou.
O acordo foi assinado na última sexta-feira e envolve Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Bradesco, com aporte de R$ 3 bilhões cada. Itaú e Santander participam com R$ 1,5 bilhão cada um. Mesmo com esse reforço, a direção da empresa reconhece que ainda será necessário captar mais R$ 8 bilhões para equilibrar definitivamente as contas.
Segundo Rondon, esses recursos adicionais poderão vir tanto de novos empréstimos quanto de aportes do Tesouro Nacional. “Essa necessidade de captação vai ser vista ao longo do ano de 2026, para ver se a melhor opção é aporte ou outra operação de crédito. Ainda não está definido como a gente faz essa composição”, explicou.
O plano era esperado diante dos sucessivos resultados negativos registrados pela estatal. Desde 2022, os Correios acumulam um déficit estrutural estimado em R$ 4 bilhões anuais, atribuído em parte ao cumprimento da regra de universalização dos serviços postais. Em 2025, a empresa já registra saldo negativo de R$ 6 bilhões nos nove primeiros meses do ano e patrimônio líquido negativo de R$ 10,4 bilhões.
A direção atribui a crise a fatores estruturais que vêm desde 2016, como a digitalização das comunicações, que reduziu drasticamente o envio de cartas, historicamente a principal fonte de receita. Além disso, a entrada de novos concorrentes no comércio eletrônico intensificou a disputa no setor de logística. “É uma dinâmica de mercado que aconteceu no mundo inteiro”, afirmou Rondon. “Algumas empresas conseguiram se adaptar, outras ainda registram prejuízos”, comparou, citando a United States Postal Service, empresa pública dos Estados Unidos, que enfrenta déficit anual da ordem de US$ 9 bilhões.
Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

