A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil divulgou nesta segunda-feira uma mensagem de ano novo na qual faz críticas diretas à atuação do Congresso Nacional ao longo de 2025. No documento, a entidade religiosa afirma que determinadas decisões tomadas pelos parlamentares “entristecem e preocupam” por representarem retrocessos sociais, ambientais e institucionais, além de colocarem em risco princípios considerados fundamentais para a democracia e a dignidade humana.

Entre os pontos destacados negativamente, a CNBB citou a aprovação da tese do Marco Temporal no Senado, posteriormente declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal. Para a Conferência, a iniciativa simbolizou um afastamento do compromisso com os direitos dos povos indígenas e com a Constituição. Também foi alvo de crítica a tramitação e a aprovação de mudanças na Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que, segundo a entidade, configuraram “ameaças à proteção ambiental”, mesmo após a sanção presidencial com vetos que acabaram derrubados pelo Congresso.

A CNBB mencionou ainda o que classificou como “pagamento exorbitante” de juros e amortizações da dívida pública, apontando que essa política compromete a capacidade do país de investir em áreas essenciais. Segundo o texto, esse cenário “deixa o país sem capacidade de maior investimento em educação, saúde, moradia e segurança”, aprofundando desigualdades sociais históricas.

A mensagem também faz referência a problemas éticos e institucionais observados ao longo do ano. De acordo com a Conferência, houve “aumento da corrupção na vida pública, a perda de decoro de parlamentares e a flexibilização de marcos legais essenciais, como a Lei da Ficha Limpa”. Para a entidade, esses fatores enfraquecem a confiança da sociedade nas instituições representativas.

“Discursos de ódio, manipulação da verdade, violências, radicalismos ideológicos e interesses particulares não podem se sobrepor ao bem comum. Tais realidades ferem a dignidade humana e obscurecem a vocação democrática do país”, afirma outro trecho do documento. A CNBB ressalta que nenhum projeto político pode “se sobrepor à vida, ao respeito à pessoa humana e à justiça social”, destacando que a democracia é um “patrimônio do povo brasileiro” que precisa ser constantemente cuidado e promovido.

No texto, os bispos também fazem um chamado à reconciliação nacional. “Como discípulos e discípulas de Jesus Cristo, somos chamados a ser testemunhas credíveis e exemplares, artesãos da paz, construtores de pontes, promotores da caridade política e da responsabilidade social. A nação precisa reencontrar o caminho da pacificação, do diálogo e do respeito mútuo”, afirma a mensagem.

Apesar das críticas, a CNBB também apontou aspectos considerados positivos em 2025, que “renovam as esperanças”. No campo econômico, a entidade destacou a retirada de parte das sanções impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, a redução da taxa de desemprego, o debate sobre diminuição da jornada de trabalho e a defesa de uma “taxação proporcional à riqueza”.

A Conferência também elogiou a realização da COP-30, em Belém do Pará, e o fortalecimento da liderança brasileira em energias renováveis. “A Igreja se fez presente, não como protagonista político, mas desejosa de contribuir para a construção de caminhos comuns diante da crise climática”, destacou o texto.

Na área da saúde, a CNBB afirmou estar satisfeita com o aumento da média de médicos por habitante e agradeceu pelos avanços do Sistema Único de Saúde. “Agradecemos a Deus pelo Sistema Único de Saúde”, registrou a entidade.

A nota é assinada pelo presidente da CNBB, Dom Jaime Cardeal Spengler, pelo vice-presidente Dom João Justino de Medeiros Silva, pelo segundo vice-presidente Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa e pelo secretário-geral Dom Ricardo Hoepers, que reafirmam o compromisso da Igreja com a democracia, a justiça social e a defesa da vida.

Foto: Lula Marques/Agência Brasil


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