O cancelamento da visita que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, faria nesta quinta-feira ao ex-presidente Jair Bolsonaro, na unidade conhecida como “Papudinha”, provocou desconforto, irritação e desconfiança entre aliados do ex-mandatário. O episódio ganhou contornos políticos e foi interpretado por integrantes do bolsonarismo como um gesto sensível em meio à reorganização da direita para as eleições presidenciais.
A insatisfação foi vocalizada pelo líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, que afirmou “esperar” que a decisão do governador não tenha relação com cálculo eleitoral. Segundo ele, o recuo precisa ser compreendido à luz de questões de agenda, e não como um sinal de distanciamento político em relação ao ex-presidente ou ao projeto presidencial do partido.
Nos bastidores, porém, parlamentares alinhados a Bolsonaro classificaram como “estranha” a desistência, sobretudo por ocorrer em um momento de disputa interna no campo conservador, intensificada após o lançamento da pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro. A visita havia sido autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e seria o primeiro encontro presencial entre Tarcísio e Bolsonaro desde a prisão do ex-presidente.
O compromisso também marcaria a primeira conversa direta entre os dois após Bolsonaro indicar Flávio como pré-candidato ao Palácio do Planalto, em dezembro. No entorno do ex-presidente, a expectativa era de um gesto simbólico, capaz de reforçar publicamente a unidade do grupo e o alinhamento do governador paulista ao núcleo mais próximo do bolsonarismo. A desistência, portanto, foi lida como um sinal ambíguo.
Sóstenes Cavalcante afirmou que compreende a possibilidade de mudanças de agenda e citou experiência pessoal para relativizar o episódio. “Ele deve ter os motivos dele. Na primeira agenda autorizada pelo Alexandre de Moraes, eu também tive que remarcar. Não sei se houve motivo eleitoral. Espero que não. O Flávio está consolidado”, disse o deputado, ao tentar reduzir a tensão interna.
Interlocutores ouvidos relataram que o mal-estar aumentou depois que Flávio antecipou publicamente que Bolsonaro diria a Tarcísio que uma eventual candidatura presidencial do governador estaria descartada e que a prioridade do grupo seria a reeleição em São Paulo. Para aliados do governador, a visita deixaria de ser um gesto pessoal de solidariedade e passaria a ter forte peso eleitoral.
Nesse contexto, pessoas próximas a Tarcísio passaram a classificar a agenda como uma “armadilha”, capaz de submetê-lo a cobranças públicas de engajamento imediato na campanha presidencial de Flávio, algo que o governador não pretende assumir neste momento. A avaliação é de que o encontro poderia limitar sua margem de manobra política.
O incômodo, no entanto, não é unânime dentro do bolsonarismo. Uma ala avalia que o recuo foi uma estratégia para evitar constrangimentos e preservar espaço político em meio à pressão interna. Esse grupo vê Tarcísio como um nome mais competitivo do que Flávio para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e defende, de forma reservada, uma chapa presidencial encabeçada pelo governador, com Michelle Bolsonaro como vice.
O vereador paulistano Adrilles Jorge avaliou que o episódio pode ter criado um constrangimento político para Tarcísio em um momento sensível. Segundo ele, apesar do apoio público do governador a Flávio, a forma como a família Bolsonaro tem conduzido o debate sucessório exige maior cautela e diálogo para evitar desgastes desnecessários dentro do próprio campo conservador.
Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

