Cinco anos após o início da vacinação contra a covid-19 no Brasil, o país vive um cenário muito diferente daquele enfrentado nos momentos mais críticos da pandemia. A imunização em massa foi decisiva para reduzir drasticamente internações e mortes, permitindo o encerramento do status de emergência sanitária. Ainda assim, especialistas alertam que o vírus continua circulando, provoca adoecimentos graves e mantém potencial de causar novos surtos, sobretudo em um contexto de baixa cobertura vacinal entre grupos prioritários.
Embora a covid-19 hoje esteja em patamares bem inferiores aos observados entre 2020 e 2021, a doença não desapareceu. O coronavírus segue entre os principais agentes de infecções respiratórias graves no país, o que exige vigilância permanente e manutenção das estratégias de prevenção. A principal delas continua sendo a vacinação, especialmente entre pessoas que não completaram o esquema básico ou pertencem a grupos com maior risco de evolução para quadros severos.
Os números mais recentes evidenciam um problema estrutural. Em 2025, o Ministério da Saúde distribuiu cerca de 21,9 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 para estados e municípios, mas menos de 40% desse total foi efetivamente aplicado. Apenas cerca de 8 milhões de doses chegaram aos braços da população, o que revela um descompasso preocupante entre a oferta do imunizante e sua utilização na ponta do sistema de saúde.
As consequências dessa baixa adesão aparecem nos dados da plataforma Infogripe, da Fundação Oswaldo Cruz, que monitora casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave. Em 2025, ao menos 10.410 pessoas desenvolveram quadros graves associados à infecção pelo coronavírus, resultando em aproximadamente 1.700 mortes. Esses números consideram apenas casos confirmados por exames laboratoriais e ainda podem crescer, já que há registros inseridos de forma tardia nos sistemas oficiais de vigilância.
Para o coordenador do Infogripe, Leonardo Bastos, a covid-19 permanece como uma das principais ameaças entre os vírus respiratórios em circulação. Ele ressalta que a percepção social do risco diminuiu, mas isso não reflete a realidade epidemiológica. Segundo Bastos, surtos continuam ocorrendo de forma periódica, e o número absoluto de casos graves e mortes ainda é elevado. O que mudou foi o parâmetro de comparação, uma vez que os números atuais são avaliados à luz de um período considerado excepcionalmente trágico.
A pesquisadora Tatiana Portella, também da equipe do Infogripe, chama atenção para outro fator relevante: a covid-19 ainda não apresentou um padrão claro de sazonalidade, como ocorre com a influenza, que costuma se intensificar no inverno. Isso significa que novas ondas podem surgir a qualquer momento, impulsionadas pelo aparecimento de variantes mais transmissíveis ou com maior capacidade de escape imunológico. Diante dessa imprevisibilidade, manter a vacinação em dia é considerado essencial.
Desde 2024, a vacina contra a covid-19 passou a integrar o calendário básico de imunização para três grupos: crianças, idosos e gestantes. Além deles, pessoas pertencentes a grupos especiais devem receber doses de reforço em intervalos regulares. Apesar dessa inclusão formal no calendário, cumprir as metas de cobertura tem se mostrado um desafio persistente para o Sistema Único de Saúde.
Em 2025, cerca de 2 milhões de doses foram aplicadas em crianças, segundo o Ministério da Saúde, mas a pasta não detalhou o percentual de cobertura alcançado. O painel público de vacinação indica que apenas 3,49% das crianças menores de um ano receberam a vacina naquele ano. Em resposta, o ministério informou que os dados disponíveis subestimam a cobertura real, pois consideram apenas uma faixa etária específica, enquanto o público-alvo inclui crianças menores de cinco anos, gestantes e idosos. A consolidação das informações por faixa etária ainda está em desenvolvimento.
Mesmo durante o período de emergência sanitária, a meta de cobertura de 90% jamais foi atingida. A vacinação infantil teve início em 2022 e, até fevereiro de 2024, pouco mais da metade das crianças entre cinco e onze anos havia sido imunizada. Entre aquelas com três e quatro anos, a taxa era ainda menor. Esse cenário revela dificuldades estruturais e culturais que vão além da simples disponibilidade de vacinas.
Para a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, Isabela Ballalai, a baixa cobertura está diretamente relacionada à diminuição da percepção de risco. Segundo ela, a adesão à vacinação depende da sensação de ameaça concreta. No início da campanha, quando casos e mortes eram elevados, o Brasil rapidamente alcançou altas taxas de imunização entre adultos. Com a redução da gravidade da pandemia, o medo diminuiu e o espaço para a desinformação aumentou, especialmente no público infantil.
Ballalai destaca que o movimento antivacina ganha força justamente quando as pessoas deixam de enxergar o risco imediato da doença. Fake news e discursos negacionistas passam a ter maior impacto quando não há hospitais lotados ou funerais frequentes. Esse fenômeno, segundo ela, explica em parte a resistência de pais em vacinar crianças contra a covid-19.
Os dados, contudo, mostram que o risco para crianças é real. Menores de dois anos formam o segundo grupo mais vulnerável às complicações da covid-19, atrás apenas dos idosos. Entre 2020 e 2025, quase 20,5 mil casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave foram registrados nessa faixa etária, com 801 mortes. Mesmo em 2024, quando a pandemia já estava controlada, houve 2.440 internações e 55 óbitos de crianças pequenas.
Além das formas graves da doença, crianças podem desenvolver a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica, uma complicação rara, mas potencialmente fatal, associada à covid-19. Entre 2020 e 2023, o Brasil registrou cerca de 2.100 casos da síndrome, com 142 mortes. Estudos internacionais também apontam maior incidência de problemas cardiovasculares, como miocardite e tromboembolismo, em crianças e adolescentes após a infecção pelo coronavírus.
Por outro lado, evidências científicas reforçam a eficácia e a segurança das vacinas. Um acompanhamento realizado em São Paulo com 640 crianças e adolescentes vacinados com a Coronavac mostrou que apenas 56 foram infectados após a imunização, sem registro de casos graves. Entre 2022 e 2023, mais de 6 milhões de doses da vacina contra a covid-19 foram aplicadas em crianças no Brasil, com raras notificações de eventos adversos, em sua maioria leves.
Isabela Ballalai ressalta ainda o papel fundamental dos profissionais de saúde na reversão do cenário de baixa cobertura. Para ela, é indispensável investir na formação médica e na atualização constante dos profissionais, para que se baseiem nas melhores evidências científicas ao orientar famílias. A diretora critica a postura de médicos que, mesmo com histórico de defesa das vacinas, passaram a relativizar sua importância, muitas vezes influenciados por interesses políticos ou financeiros.
Segundo Ballalai, a confiança do paciente no médico é decisiva. Quando um profissional conhecido questiona vacinas, o impacto é maior do que qualquer campanha institucional. Por isso, ela defende que os defensores da imunização devem se apoiar nos dados científicos disponíveis e atuar de forma mais ativa no esclarecimento da população.
As recomendações atuais de vacinação contra a covid-19 no Brasil variam conforme a faixa etária e o grupo de risco. Bebês devem iniciar o esquema a partir dos seis meses de idade, com doses subsequentes conforme o tipo de imunizante. Crianças imunocomprometidas seguem um esquema semelhante, com reforços semestrais. Crianças indígenas, ribeirinhas, quilombolas ou com comorbidades recebem reforço anual, assim como aquelas que não completaram o esquema básico antes dos cinco anos.
Gestantes devem receber uma dose a cada gravidez, enquanto puérperas têm indicação de vacinação caso não tenham sido imunizadas durante a gestação. Idosos e pessoas imunocomprometidas devem receber doses a cada seis meses. Outros grupos prioritários, como trabalhadores da saúde, pessoas com deficiência, comorbidades, em situação de rua ou privadas de liberdade, além de indígenas e quilombolas, têm recomendação de dose anual. Já pessoas entre cinco e cinquenta e nove anos que nunca foram vacinadas devem receber ao menos uma dose.
Cinco anos após o início da vacinação, o Brasil colhe os frutos da imunização em larga escala, mas enfrenta o desafio de evitar retrocessos. A covid-19 recuou, mas segue presente. Manter altas coberturas vacinais é a principal ferramenta para impedir novas tragédias sanitárias e proteger os mais vulneráveis em um cenário que ainda inspira cautela.
Foto: Raquel Portugal/FioCruz

