Dezembro de 2025 frustrou expectativas e se consolidou como o pior mês do ano para o varejo alimentar brasileiro. Tradicionalmente, esse período registra vendas aquecidas, impulsionadas pelas festas de fim de ano e pela entrada do décimo terceiro salário no orçamento das famílias. Em geral, supermercados conseguem elevar o faturamento sem recorrer a estratégias promocionais agressivas, aproveitando o aumento natural do consumo típico do período.

No entanto, o desempenho observado no fim do ano passado contrariou essa lógica. Mesmo com a desaceleração da inflação de alimentos a partir de junho, fator decisivo para que a inflação geral encerrasse o ano abaixo do teto da meta de 4,5%, as vendas de comida recuaram. É o que aponta levantamento da Scanntech, plataforma de inteligência de dados especializada no varejo e na indústria, que monitora cerca de 13,5 bilhões de tíquetes anuais registrados nos caixas de supermercados em todo o país.

Segundo o estudo, as vendas do varejo alimentar em dezembro de 2025, considerando todos os formatos de loja, como mercadinhos, supermercados, hipermercados e atacarejos, caíram 5,5% em volume na comparação com o mesmo mês de 2024. O dado chama atenção por se tratar de um período historicamente favorável ao setor, quando o fluxo de consumidores costuma ser maior.

A queda no faturamento, por sua vez, foi menos intensa. A receita recuou 2,5% na mesma base de comparação, movimento explicado pelo aumento de 3,2% no preço médio por unidade vendida. Ainda assim, o resultado foi negativo e destoou do padrão observado ao longo de 2025. Dezembro foi o único mês do ano a registrar retração na receita anual do varejo de alimentos.

O desempenho também contrasta com o comportamento registrado nos três anos anteriores. De acordo com Felipe Passarelli, head de inteligência de mercado da Scanntech, entre 2022 e 2024 os meses de dezembro sempre apresentaram crescimento no faturamento em relação ao mesmo período do ano anterior. Para ele, o resultado de 2025 reforça um movimento estrutural que se consolidou ao longo do ano.

Passarelli avalia que, apesar da desaceleração inflacionária e da melhora da renda média, o consumidor manteve postura cautelosa ao longo de 2025. Um dos fatores que ajudam a explicar esse comportamento é o aumento do endividamento das famílias, associado, entre outros elementos, à expansão das apostas online. Segundo dados do Banco Central, as chamadas bets movimentam mais de R$ 30 bilhões por mês, o que compromete parte relevante do orçamento doméstico.

O economista-chefe da Confederação Nacional de Bens, Serviços e Turismo, Fabio Bentes, destaca ainda a mudança na composição dos gastos das famílias brasileiras. Segundo ele, o consumo de serviços tem avançado de forma consistente e passado a disputar espaço com a compra de bens essenciais, como alimentos. Atualmente, os serviços livres respondem por cerca de 48,7% dos gastos familiares, percentual significativamente superior ao observado em dezembro de 2008, quando representavam 33,6%.

Em sentido oposto, a participação dos bens no orçamento das famílias caiu ao longo dos anos. Em dezembro de 2008, esses itens representavam 66,4% das despesas, índice que recuou para 51,3% em dezembro de 2025, de acordo com cálculos ajustados por Bentes a partir dos dados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo, do IBGE.

Além do avanço dos serviços, Passarelli aponta outros fatores que inibem o consumo de alimentos, como os juros elevados e a piora da confiança do consumidor. A inflação segue sendo a principal preocupação para cerca de metade da população, e a percepção de que o dinheiro perdeu poder de compra influencia diretamente as decisões no supermercado.

Diante desse cenário, o consumidor passou a ajustar volumes, priorizar itens essenciais e intensificar a busca por promoções. Esse comportamento resultou em estoques elevados no fim de dezembro, agravados pelo fraco desempenho da primeira quinzena de janeiro. Para reagir, redes supermercadistas intensificaram ações promocionais para tentar recuperar parte das perdas.

Embora grandes redes tenham evitado se manifestar oficialmente, visitas a lojas confirmaram um volume expressivo de produtos em oferta. A rede Hirota, com 17 unidades na região metropolitana de São Paulo, programou uma grande queima de estoque entre a semana passada e o início desta semana.

Segundo o diretor da empresa, Hélio Freddi, mais de 150 itens foram colocados em promoção, com descontos que chegam a 50%. Entre os produtos estão itens considerados formadores de preço e de opinião, como ovos, café, carnes e cervejas. A expectativa é reduzir a distância em relação às metas estabelecidas para o mês.

Freddi afirma que janeiro tem sido especialmente difícil e que as vendas estão cerca de 4% abaixo do esperado. Ele atribui o desempenho fraco a despesas típicas do início do ano, como matrículas escolares, compra de material didático, pagamento de impostos como IPTU e IPVA, além da insegurança em relação ao cenário econômico.

Mesmo com a estabilidade macroeconômica, o receio do consumidor persiste. Para o executivo, a dificuldade enfrentada em dezembro e janeiro reflete um problema generalizado no setor supermercadista, que precisa reforçar o caixa para cumprir despesas correntes. Segundo ele, a percepção entre empresários do ramo é de que todos enfrentam desafios semelhantes no atual contexto econômico.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil


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